Ele queria organizar SP. Do Metrô à Paulista

Há, obviamente, mil e um motivos diferentes para um jovem entrar em uma escola de Arquitetura. Ter capacidade de um dia construir uma bela casa ou mesmo um espigão residencial deve ser um deles, possivelmente. Trabalhar com design de móveis, com paisagismo ou com restauro também. Quem sabe até se especializar em urbanismo, usar o conhecimento aprendido nas salas de aula para trabalhar com o poder público em obras urbanas, como uma avenida, um túnel, uma praça nova. João Carlos Cauduro, no entanto, queria fazer algo um pouco mais complicado. Cauduro, que entrou na faculdade simplesmente porque gostava de pintar, queria mesmo era organizar São Paulo.

RODRIGO BRANCATELLI, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2012 | 03h08

"Se você faz um projeto, ele precisa ter como objetivo final melhorar o nosso labirinto urbano. Ou você consegue isso ou só piora a destruição da cidade", diz ele, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) em 1960. Foi com esse mantra em mente que o arquiteto e designer tentou botar um pouco de ordem na capital sem usar prédios ou obras viárias, mas por meio de símbolos, marcas, placas, totens, sinais e textos.

De sua prancheta não saíram edifícios espelhados, mas desenhos que ajudaram a dar um pouco de sentido para a maior metrópole do Hemisfério Sul.

Cauduro é o mais famoso arquiteto brasileiro especializado em identificação visual urbana, algo difícil de explicar, mas que pode ser facilmente reconhecido por quem anda por São Paulo. É de sua autoria a marca do Metrô, por exemplo, aquelas duas setas azuis apontando para cima e para baixo - é só bater o olho no símbolo para o paulistano saber que ali passa o metrô. Foi ele também que, entre 1967 e 1969, desenhou todas as placas de sinalização e aquele mapinha colorido estilizado do Metrô, algo que levou três anos de trabalho para que o passageiro demore apenas alguns segundos para se localizar.

Outro projeto conhecido de Cauduro é a identificação visual da Avenida Paulista, realizada na década de 1970 - em outras palavras, aqueles totens pretos instalados nas esquinas da via, pensados para juntar o maior número possível de informações e equipamentos em apenas um pedaço de alumínio de 7,2 metros de altura, 45 centímetros de largura e 20 centímetros de profundidade. Isso sem falar no projeto que organizou entre 1975 e 1978 todo o transporte público da capital, dividindo São Paulo em áreas com cores distintas, algo que até hoje serve como base para os ônibus paulistanos.

"Essa coisa do Cauduro de criar uma sinalização que é informativa e ainda assim bonita é impressionante", diz o arquiteto Jorge Wilheim, que já foi secretário do governo paulista de Paulo Egydio Martins, nos anos 1970, e secretário de Planejamento nos governos Mario Covas e Marta Suplicy. "Sempre lembro de quando criamos o Parque Anhembi: ninguém sabia onde ficava. Aí, o Cauduro teve a ideia de espalhar pela cidade pequenas plaquinhas de madeira, apenas com a inscrição 'Parque Anhembi', com uma setinha apontando a direção. Em vez de gastar um dinheirão em imensas placas, ele pensou em plaquinhas simples pintadas à mão, o que mostra toda a genialidade dele."

João Carlos Cauduro começou na carreira desenhando todos os móveis das faculdades da Cidade Universitária. A partir desse projeto, montou um escritório com o colega de turma Ludovico Martino, e logo foi chamado para fazer o símbolo do Metrô. "Até que foi fácil, tentei dar uma ideia do 'leva e traz', do 'sobe e desce', de ir para o trabalho e voltar para casa, e chegamos nas duas setas azuis, algo simples mas eficiente", diz ele, que depois disso já criou logotipos para a Polícia Militar de São Paulo, para o BNDES e para empresas como a TAM, Hospital São Luiz, Riachuelo, Banco do Brasil, Vale e Credicard, entre outras.

Planejamento. Depois de também criar toda a parte visual do Metrô, como placas e mapas, Cauduro desenhou a sinalização do Zoológico de São Paulo. Em 1974, seu escritório foi contratado para dar à Avenida Paulista uma nova identidade, condizente com seu simbolismo. Foi aí que ele desenhou os famosos totens pretos, uma ideia tão simples quanto eficiente. "Percebi que aquele poste curvado ia atrapalhar a paisagem da Paulista, intervir demais, e os totens de uso múltiplo eram a solução perfeita", explica. Também desenhou elegantes abrigos de ônibus exclusivos para a avenida, que foram retirados na gestão da prefeita Luiza Erundina. "Isso sempre acontecia, mudava o prefeito e os projetos eram interrompidos, mudados, sem planejamento a longo prazo."

Entre 1975 e 1978, Cauduro foi ainda mais longe em sua missão de tentar limpar São Paulo. Ele criou o sistema de comunicação visual para os ônibus de São Paulo, aquelas placas que mostram as linhas e o itinerário. Para isso, teve de dividir em nove áreas, cada uma com uma cor - assim, o paulistano poderia facilmente saber apenas pela cor para onde o ônibus estava indo. "Estudei todos os mapas antigos para entender a formação da cidade, vi que essas áreas ao redor do centro expandido eram os locais onde o pessoal pernoitava com suas mulas para seguir viagem para outras regiões. E esses caminhos viraram as principais avenidas da capital. A partir daí, conseguimos criar essa identificação visual das placas."

Novamente, o projeto acabou sendo abandonado com o passar das gestões - algo que desanimou Cauduro de continuar trabalhando com o poder público. Atualmente, no entanto, ele voltou a trabalhar com planejamento urbano, refazendo a identificação da CPTM (que agora é toda vermelha) e ajudando na reformulação do visual do Metrô. Ainda tem na manga um projeto de revitalização da Avenida Pacaembu, algo pronto, só esperando verba da Prefeitura ou mesmo dos comerciantes da região.

"Tem muita coisa que poderia ser feita para melhorar e organizar a cidade, mas precisa ter vontade política", diz. "É preciso pensar nos espaços cívicos, pensar no macro. Sem isso, a confusão vai sempre piorar."

João Carlos Cauduro usa a linguagem visual para simplificar a cidade

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