Priscila Mengue/Estadão
Priscila Mengue/Estadão

'Não é o primeiro, nem vai ser o último', diz parente de vítima no Campo Limpo

Vinicius Guedes, de 19 anos, foi um dos três jovens baleados na região; moradores relatam medo e insegurança

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 23h26

SÃO PAULO - Conhecido na vizinhança como Chulé, Vinicius Aparecido Paula Guedes tinha 19 anos, um filho de oito meses e estava casado há menos de um ano com Thayla. Nas redes sociais, a jovem postou mensagens de despedida. "Eu perdi meu grande amor. Só de pensar que nosso filho vai crescer sem você, meu coração dói, meu peito chora. Que Deus te receba, minha vida. Que todos orixás te acompanham", escreveu. 

Vinicius foi um dos três jovens baleados em uma viela da Rua Nina Stocco, no Jardim Catanduva, no distrito de Campo Limpo, zona sul de São Paulo, na madrugada desta quarta, 5. Em menos de uma hora, nove pessoas foram mortas em regiões diferentes da cidade. Outro ataque ocorreu em Jaçanã, na zona norte, deixando seis mortos

Um morador próximo à Rua Nina Stocco relata ter ouvido cerca de 15 tiros por volta das 23h, quando estendia um cobertor no varal. "Fiquei assustado, fui direto para dentro. Todo mundo ficou quieto, na sua casa enquanto ocorreu tudo", relata ele.

De acordo com testemunhas, o incidente ocorreu após uma motocicleta com dois homens se aproximar dos jovens, que correram para uma viela, onde Kayke Santos Moreira, de 20 anos, morreu. Vinicius foi levado para o Hospital do Campo Limpo por moradores, onde não resistiu aos ferimentos. Já o entregador de pizzas Johnny Felipe Nascimento, de 24 anos, que estava trabalhando na hora do tiroteio, está internado no mesmo hospital após levar um tiro na mão e outro de raspão no rosto. 

"Não podem matar assim, chegar atirando. Mas, aqui, é sempre desse jeito. Ele não é o primeiro, nem vai ser o último. Não adianta reclamar, porque a polícia vem aqui, mas nunca resolve nada", disse um familiar de Vinicius que, assim como dezenas moradores, não quis se identificar por medo de represálias.

Com uma motocicleta emprestada, Vinicius costumava fazer entregas para a Nilza Pizzas nos fins de semana - mesmo local em que Johnny trabalhava diariamente. "Eu conheço esse menino desde quando estava na barriga da mãe dele. Ele não era bandido e sabia que, se precisasse de uma ajuda, poderia contar sempre com a gente", afirmou um familiar. 

Cotidiano. Moradores do Jardim Catanduva relatam que a violência na região se estende há mais de 20 anos, envolvendo policiais, moradores e o que chamam de "pés de pato", que são tipos de "justiceiros" ou matadores de aluguel. Embora afirmem que de noite é mais perigoso, também dizem ter presenciado tiroteios durante o dia. Após o incidente, contudo, a rotina no bairro permanecia normalizada, com escolas e comércio funcionando. 

Dono de uma loja a poucas quadras da Rua Nina Stocco, um comerciante diz que seu negócio foi assaltado três vezes em três anos. Hoje, ele mantém duas câmeras ligadas 24 horas para evitar novos crimes. Próximo dali, um morador disse que "bairro pobre não tem horário seguro. Não tem como explicar o que acontece aqui, porque nem a gente consegue entender". 

A cerca de 1,5 quilômetro do local, Wizmael Dias Correia, de 19 anos, foi baleado por um motociclista enquanto dirigia também uma motocicleta por volta das 23h30. O incidente ocorreu na Rua Carualina, nos fundos da Escola Estadual Hélio Motta, no Jardim Olinda, também distrito do Campo Limpo. 

Uma aposentada que mora próximo ao local do crime relata ter acordado com o barulho de cerca de 10 tiros. "Moro aqui há 50 anos e nunca tive um dia de paz, aqui não existe sossego. Vira e mexe tem uma violência. E a polícia só vem depois que aconteceu. Quando precisa, ela nunca está", comenta. Outro pessoa que reside na região resumiu: "Se essa rua pudesse, ela gemeria", diz o homem ao apontar para o local que ainda estava com manchas de sangue e um capacete de moto às 10h da manhã.

 

 

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