''Ele me traiu'', diz mãe de autor de ataque em Taiúva, em 2003

Aos 18 anos, Edimar atirou 15 vezes no pátio da escola, atingiu seis colegas e dois funcionários e se matou

Brás Henrique / TAIÚVA (SP), O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2011 | 00h00

Por um pequeno vão da janela do quarto de sua casa, a última da rua, com a voz mansa e a fisionomia triste, Tereza Freitas balbucia algumas frases, ainda sem entender o que aconteceu há mais de oito anos com o filho Edimar, então com 18 anos. Na tarde de 27 de janeiro de 2003, uma segunda-feira, Edimar atirou 15 vezes contra cerca de 50 estudantes no pátio da Escola Estadual Coronel Benedito Ortiz, em Taiúva, no interior do Estado, atingindo seis colegas, o marido da zeladora e a vice-diretora da instituição. E se suicidou. Edimar foi o único a morrer.

"Criei meu filho único, com amor e carinho, e ele fez aquilo", lembra a mãe. "Coloco na minha cabeça que ele fez uma traição comigo." Abatida, Tereza ainda faz terapia a cada duas semanas. O marido, Nelson, lavrador, nada fala.

Tereza emocionou-se novamente, na quinta-feira, ao assistir, pela TV, o massacre ocorrido na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio. Confessa que chorou, pois relembrou os dias após o atentado cometido pelo filho. "Voltou tudo, com mais força", afirma ela.

Quando Tereza começa a falar com Nelson sobre o filho, ele corta o assunto. O pai de Edimar trabalha no campo e o serviço ocupa a sua mente. "É muito difícil, ainda não estamos recuperados", revela Tereza. Seu tio, o aposentado José Zocolaro, de 81 anos, diz que os parentes até evitam falar sobre o assunto com os pais do rapaz. "O Edimar era um moleque bom, conversava como gente grande", diz Zocolaro.

"Zoado". Amigos e vítimas falam que Edimar era calmo, retraído. Por ser gordo, era "zoado" pelos colegas e isso pode ter sido o motivo que o levou a cometer a atrocidade com o revólver calibre 38, raspado, que ninguém sabe como ele comprou. Os projéteis (sobraram 89 em seus bolsos) foram comprados em Jaboticabal.

O contador Alexandre Belesso, de 26 anos, era amigo dele, desde o 1.º ano escolar. Um frequentava a casa do outro. "Quando me falaram que tinham atirado na escola, eu já imaginei que fosse o Edimar", diz - e explica a desconfiança: a convite de Edimar, os dois praticavam tiro com espingarda de pressão (de chumbinho). Os alvos eram latinhas, nos fundos da casa de Edimar.

Belesso lembra ainda do revólver calibre 22. Essas duas armas foram apreendidas no quarto de Edimar, após o episódio. Da arma calibre 38 ele nada sabia. "Ele era bom com espingarda de chumbinho."

"Edimar era gente fina, mas bastante zoado, até por mim, e nem existia o termo bullying naquela época", diz Belesso, confirmando que o amigo adorava o líder nazista Adolf Hitler. E que, por causa do porte físico, era apelidado de Elefante cor-de-rosa, Pikachu e Vinagrão (por tomar vinagre na tentativa de emagrecer). Ele até cita que a direção da escola teria sido alertada sobre ameaças de Edimar em plena sala de aula, mas que, por Taiúva ser cidade pacata, com 5.447 habitantes, isso não preocupou.

"O aniversário dele era em 5 de dezembro e o Edimar avisou que atiraria em quem cantasse Parabéns a Você. Quando chegou a data, 70% dos alunos faltaram, inclusive eu."

Caso isolado. A vice-diretora da escola, Maria de Lourdes Jacon Fernandes, ainda no cargo, foi alvo de dois tiros: um atingiu de raspão uma das pernas e o outro passou perto da cabeça. Ela argumenta que foi um caso isolado e que não percebeu qualquer problema com Edimar.

"Ele nunca deu trabalho, era comportado, sem ocorrências", lembra ela, destacando que, depois, a direção da instituição mudou o "olhar" em relação aos alunos. "Os que mais brigam e discutem são mais bem resolvidos", diz ela. E acrescenta: "Ele (Edimar) foi a própria vítima."

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