Ele fez o certo. Trouxe os sem-teto para o seu lado

Análise: Cláudio Gonçalves Couto

CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR DO , DEPARTAMENTO DE GESTÃO PÚBLICA DA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2013 | 02h05

Esse tipo de prática faz sentido para um prefeito do PT, como o Fernando Haddad, na medida em que o partido é muito ligado a movimentos sindicais e sociais. É de se esperar que um prefeito do PT tenha a facilidade para falar diretamente com esses movimentos o que, eventualmente, prefeitos de outros partidos não teriam.

Em segundo lugar, é uma postura conciliadora assumida por Haddad. Claro que é mais fácil ter uma postura conciliadora tendo em vista essa vinculação orgânica que o PT tem com esses movimentos. E é mais fácil você, como prefeito, se conciliar com alguém cujo perfil é mais parecido com o seu.

Com essa atitude, Haddad quebra um pouco a tensão que porventura pudesse haver entre esse movimento de moradia e a sua gestão. Ele mostra que está disposto a dialogar, que não vê os manifestantes como inimigos, pois pode estar com eles, falando no carro de som. E quando faz isso fica mais fácil depois travar negociações com o grupo.

É mais difícil para um movimento social atacar de maneira muito virulenta um prefeito que, meses antes, subiu no carro de som para falar com eles. Nesse sentido, acho que foi uma estratégia muito inteligente escolhida por Haddad. Ele fez o certo. Trouxe os sem-teto para o seu lado. Além disso, não correu risco de criar ruídos no seu discurso. Não falou para a imprensa nem para as lideranças, que poderiam distorcer alguma coisa. Falou diretamente.

É meio óbvio dizer isso, mas políticos fazem política. E política envolve, entre outras coisas, acomodação, concessões, compromissos, tentativas de diálogo e até atos simbólicos. Subir no carro de som é um ato carregado de simbolismo, mas não vejo nisso um ato demagógico.

Fazer uma coisa dessas é do jogo, assim como é do jogo a oposição tentar desqualificar essa ação. Analiso que, neste caso, há três situações legítimas e democráticas: as pessoas indo até a Prefeitura para protestar, o prefeito subindo no carro de som para se aproximar dos manifestantes e a oposição criticando o prefeito por isso.

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