Ele faz banquetes para os passarinhos

Desde 2003, o aposentado Mano vai diariamente ao Parque da Aclimação para dar 30 mamões e 35 bananas às aves

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Tomomi Uemura, o Mano

Para passarinho, mamão é filé mignon. A constatação é de Tomomi Uemura, o Mano, despachante aposentado que vai todos os dias ao Parque da Aclimação com missão que considera indispensável: alimentar passarinhos. Há sete anos, com chuva ou sol, Natal ou carnaval, lá vai Mano, carregando frutas da feira para encher o papo dos penosos. Acabou ficando amigo das aves. "Só não comem na minha mão agora porque pensam que essa câmera é uma espingarda."

No parque, frequentadores o chamam de "japonês dos passarinhos". Desde que se aposentou, em 2003, seu trabalho é abastecer as bancadas de madeira que ficam atrás da concha acústica com 30 mamões e 35 bananas por dia. Sabiás, sanhaços, periquitos, a passarada faz a festa com o banquete de Mano.

Questões estratégicas o levaram a escolher o "local de trabalho". Nos arredores do parque há seis feiras livres, quase uma por dia. Ficou tão conhecido que nem precisa avisar: os feirantes separam frutas para ele. "Na terça é na Rua Guimarães Passos. Na quarta, na Oliveira Peixoto. Na quinta, Teodureto Souto e por aí vai", enumera - e se empolga: "Aqui é a cratera de um vulcão! Distribuição privilegiada! É quente!"

O dia desse voluntário alimentador de passarinhos começa cedo: caminhada às 5h30, frutas para os pássaros às 8h, feira à tarde para abastecer o carrinho. "Nunca perdi um dia." Para facilitar a vida, ele mesmo melhorou a infraestrutura do parque. "Fiz uma vala para escoar a água e construí uma bancada."

O aposentado de 64 anos tem uma única bronca. "Só não aguento pais que ensinam os filhos a assustar os passarinhos. Ainda vou chegar e falar: "Cai fora você, seu tranqueira!" Eles não têm outro lugar para ir nessa cidade!"

Depois, enquanto discorre sobre o penteado dos pica-paus-pretos - "parece que passaram gel, cheios de marra" -, ele interrompe o raciocínio. Já são 11h30, tem de puxar logo o carrinho. "Me apavoro só de pensar em perder a hora" disse, e encerra a conversa. Era terça, dia de feira na Guimarães Passos.

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