Helvio Romero/Estadão
Helvio Romero/Estadão

Ele estava ali antes do Minhocão aparecer

Mecânico testemunhou do gigantismo da obra à decadência da região

Edison Veiga e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2017 | 05h00

SÃO PAULO - “Essa rua era bonita para caramba em 1967”, recorda-se o mecânico Getulio de Oliveira Neto, de 64 anos. Ele tinha 14 anos e havia começado a trabalhar em uma oficina na Amaral Gurgel, em Santa Cecília, região central da cidade. Quatro anos depois, montaria sua própria mecânica, a dois quarteirões de distância. O Minhocão, então Elevado Presidente Costa e Silva – hoje Presidente João Goulart –, foi inaugurado nesse meio tempo, em 1970.

Assim como boa parte dos moradores e comerciantes da região – cujos imóveis, em média, datam de 1975 –, Oliveira testemunhou o gigantismo da obra viária, a decadência da região, a invasão dos outdoors de lingerie nas fachadas dos prédios e o escancaramento das empenas cegas deterioradas – depois da Lei Cidade Limpa. Nos últimos anos, também vê os jardins verticais, o “parque” em que o Minhocão é convertido aos domingos – quando fecha aos carros – e, principalmente, os rumores da intelligentsia paulistana que clama pela extinção do Elevado. 

Oliveira é contra.

Oliveira acha que as coisas só pioraram. 

“Veja só. Tiraram a publicidade. Olha a desgraça que virou: os prédios todos feios”, argumenta, sem olhar para o repórter. De dentro da oficina, sentado em uma cadeira, seus olhos miram o Minhocão. 

Entre as rebimbocas da parafuseta da lida diária, Oliveira de vez em quando ouve alguém falando que “logo, logo vão derrubar o Minhocão”. Para ele, não vão não. Nunca vão. 

Não que o Elevado tenha garantido clientela maior, fluxo de carros, visibilidade ao negócio. “No começo, até me lembro que havia muitos acidentes. Não tinha muito controle de velocidade, e aí em algumas madrugadas acontecia até de carro despencar de lá de cima”, diz. 

Para ele, urbanista algum vai convencê-lo da Física básica do trânsito paulistano. “Se tirar o Minhocão, para onde vai tudo isso de carro? É coisa de um milhão de carros por dia. Ninguém vai derrubar, não”, justifica, teimoso contra quaisquer argumentos contemporâneos. 

Oliveira acompanhou o repórter até a calçada. Depois da despedida, olho no Elevado, repetiu: “Escreve aí: não vão derrubar”

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