JF Diorio/AE
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Ele cuida do cafezal no meio da cidade

Mineiro radicado em SP é responsável por plantação do Instituto Biológico

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2012 | 03h05

Muito provavelmente, Altair Pereira da Silva é o único cafeicultor - em plena atividade - que mora na cidade de São Paulo. "Tenho muito orgulho disso", comenta. Aos 69 anos, é ele quem cuida da plantação de cafés mantida pelo Instituto Biológico, em uma área de 10 mil m² na Vila Mariana, zona sul, a menos de 10 minutos da Avenida Paulista.

São 1,5 mil pés de café e uma produção anual de cerca de 500 quilos - distribuídos a entidades assistenciais cadastradas pelo Fundo Social de Solidariedade do Estado de São Paulo. "Como faço para cuidar, não sei. É plantar, é limpar, é adubar, é colher", diz Altair, um homem de poucas palavras e muito trabalho.

Na próxima quinta, Dia Nacional do Café, o trabalho dele estará no centro das atenções. Isso porque, como ocorre desde 2006, um evento no Instituto Biológico celebrará o início da colheita de café no Estado. No serviço de tirar os frutos do pé, o público é convidado a ajudar.

A colheita simbólica deste ano ainda tem um motivo de comemoração. "Conquistamos uma certificação internacional de qualidade, referente a boas práticas agrícolas, porque não utilizamos agrotóxico na produção", afirma Harumi Hojo, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Sanidade Vegetal do Instituto. "Somos a única instituição pública do planeta a ter esse certificado", comemora Antonio Batista Filho, diretor-geral da entidade.

De Minas para SP. Nascido no município mineiro de Pedra Azul, Altair aprendeu a lidar com a terra logo cedo, juntamente com seus seis irmãos. "Ainda criança, já trabalhava nas pastagens. Carpia, lidava com a terra", relata.

Quatro décadas atrás, decidiu se mudar para São Paulo. Incentivado por um irmão que estava aqui. "Eu ainda era solteiro. Deixei a namorada e vim sozinho para cá. Queria ver se a vida melhorava um pouco, porque lá não dava para ganhar nada", recorda-se ele. "Vim de ônibus. Quando desci na rodoviária, olhei para cima e pensei: 'minha nossa, essa cidade é grande demais'".

Espantou-se mesmo foi com os aviões. "Avião eu via às vezes lá no interior de Minas. Mas de longe, lá no céu, não dava para imaginar como era. Aí, uma vez passei encostado no aeroporto (de Congonhas) e vi de pertinho. Voar não voo, não. Por enquanto, ainda tenho medo."

Na capital paulista, trocou a enxada pelo serrote: foi trabalhar como carpinteiro. Algum tempo depois, aos 33 anos, voltou para Pedra Azul. Em nome do amor. Leda, a namorada, o esperava. Casaram. Dois meses se passaram e Altair estava de volta a São Paulo. Aliança no dedo e mulher a tiracolo. Tiveram um casal de filhos - hoje com 33 e 27 anos.

Lavrador urbano. Há 25 anos, Altair foi contratado pelo Instituto Biológico e se reencontrou com a vida de lavrador. "Antes eu nunca tinha trabalhado com café, mas aprendi. Aprendi por mim mesmo, com a prática."

Ele mora na Vila Mariana, a poucas quadras do local de trabalho. "Venho a pé. Quando comento com as pessoas que trabalho em uma plantação, muitos se espantam, não imaginam que possa existir algo assim dentro da cidade."

Altair conta que gosta muito de tomar café. Não fica sem, pelo menos, cinco xícaras por dia. No trabalho, a bebida que consome é produzida com os grãos cultivados por ele próprio. "O café é suave. Duro é cuidar dele", compara.

A história dessa minifazenda urbana de café remonta à primeira metade do século passado. Em 1924, uma praga devastou os cafezais do Estado, causando muita preocupação, já que se tratava do principal produto da economia paulista da época. A tragédia motivou a criação, três anos mais tarde, de um órgão para realizar pesquisas científicas relacionadas ao tema. Nascia aí o Instituto Biológico. Nos primeiros anos, a instituição funcionava em seis prédios adaptados e distantes uns dos outros. Em 1945, quando a sede atual ficou pronta, foi iniciado o cafezal - que, naquele momento, servia para pesquisas.

Atualmente, essa lavoura urbana tem função didática, pedagógica e cultural: serve para que os paulistanos possam conhecer o cultivo daquele que já foi o motor da economia do Estado. Desde 2006, sempre em maio, o Instituto realiza o início simbólico da colheita do café paulista. Inspirada em cidades francesas que fazem o mesmo com a uva, a ideia é ter um evento que marque a abertura da safra anual.

No evento de quinta-feira, estão previstas homenagens. Como o Instituto Biológico comemora 85 anos, serão plantadas 85 mudas. Mas o ponto alto, ao menos para Altair, deve ser o momento em que a entidade mostrará reconhecimento pelo trabalho de gente como ele - os cafeicultores que, por meio de sua lavra, já foram protagonistas na economia paulista. E hoje seguem tendo importância - histórica, social e corriqueira - no cafezinho nosso de cada dia.

Mineiro radicado em SP é responsável por plantação do Instituto Biológico

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