Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Ele chegou baleado, pedindo socorro', diz vizinha de bar onde houve chacina

Atiradores mataram ao menos dez homens em duas ocorrências entre a noite de terça-feira, 4, e a madrugada desta quarta-feira, 5, na capital paulista

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2017 | 13h43
Atualizado 05 Abril 2017 | 20h22

SÃO PAULO - As marcas de sangue ainda estão nas paredes das casas da Rua Carlos Guimarães, no Jaçanã, zona norte da capital paulista, ao lado do bar onde seis pessoas morreram e outras três ficaram feridas após um tiroteio. Foi nesta rua que uma das vítimas, identificada por vizinhos como José, chegou pedindo socorro aos gritos.

Atiradores mataram ao menos nove homens e deixaram outros quatro feridos em duas chacinas ocorridas entre a noite de terça-feira, 4, e a madrugada desta quarta-feira, 5, na capital paulista. Os casos foram no Jaçanã, na zona norte, e no Campo Limpo, na zona sul, em menos de uma hora entre um e outro. 

A vítima, segundo relato de ao menos cinco testemunhas ouvidas pelo Estado, chegou cambaleando por uma escada que liga a rua ao local da tragédia. Moradores começaram a sair de suas casas para atendê-lo.

"Estava todo mundo na rua, todo mundo assustado. No começo, as pessoas ficaram com medo de ter alguém atrás dele para executar, mas depois que vimos que não tinha, fomos socorrer", conta a moradora Roberta Samara de Souza, de 42 anos.

Roberta conta que assistia a um programa de TV e já se preparava para dormir quando, por volta de 0h30, ouviu o que chamou de "rajada" de tiros. "Foram pelo menos seis ou sete", disse.  Apesar da ocorrência, ela afirmou que não acha o bairro perigoso e que costuma chegar à noite em casa.

O clima no bairro é de luto, desconfiança e apreensão. A reportagem tentou conversar com as famílias de duas das vítimas que moram no local, mas ambas recusaram. 

Oração. Moradora da mesma rua, uma mulher que pediu para não ser identificada conta que se desesperou ao ouvir os tiros, pois tem um filho que frequenta o mesmo bar onde aconteceu a chacina. "Os rapazes (no bar) estavam comemorando o aniversário de um deles, foram tomar uma cerveja. Logo me desesperei achando que meu filho estaria lá, mas ele estava fora. Fiquei muito nervosa", declarou.

Outros moradores negam que a região seja violenta. O pintor José Arantes, de 42 anos, disse que mora no bairro há 25 anos e o considera "tranquilo". "Nunca vi nada assim acontecer", afirmou. Ele declarou que era amigo de uma das vítimas, Adriano dos Anjos Silva, de 39 anos. "Era trabalhador, tinha uma criança, um pai de família."

Zona norte. No Jaçanã, segundo o relato à Polícia Civil de uma das vítimas que sobreviveram, dois homens em uma motocicleta prata atiraram em direção ao grupo de pessoas que estava em um bar na altura do número 23 da Rua Antônio Sérgio de Matos. Os criminosos fugiram.

Cinco homens morreram dentro do estabelecimento e outro na rua. Três ficaram feridos e foram socorridos aos Hospitais São Luiz Gonzaga, do Mandaqui, ambos na zona norte, e Geral de Guarulhos, na Grande São Paulo. 

A chacina na zona norte aconteceu no Conjunto Habitacional Jova Rural, onde há uma base da PM instalada, a poucos metros do bar. Um Centro de Integração da Cidadania (CIC) também fica localizado em uma rua próxima. O proprietário do estabelecimento disse à polícia que não estava no local no momento do crime.

As seis vítimas que morreram no bar são Sidnei Rodrigues Cordeiro, de 38 anos; Valdir Pereira de Souza, de 46; Adriano dos Anjos Silva, de 39; Wellington Claudino de Souza, de 35; Gilmar Vieira da Silva, de 39; e Fernando, cujos sobrenomes e idade não foram informados. Apenas um deles tem passagem pela polícia por tráfico e porte de drogas.

Zona sul. Já no Campo Limpo, por volta da meia-noite, três homens foram mortos e um ficou ferido por disparos de arma de fogo na altura do número 10 da Rua Professora Nina Stocco, na região do Jardim Catanduva.

Uma testemunha disse à Polícia Civil que pilotava uma motocicleta com o amigo Wizmael Dias Correia, de 19 anos, na garupa e percebeu que outra moto com duas pessoas o perseguia. O piloto tentou fugir, mas Correia se assustou e desceu do veículo. Em seguida, o garupa da moto sacou uma arma, atirou contra o jovem de 19 anos, acelerou e fugiu.

Já um entregador de pizza informou à polícia que parou na Rua Professora Nina Stocco para pedir informação quando duas pessoas em uma motocicleta atiraram em direção a ele e outras vítimas. O entregador ficou ferido na mão.

Além de Correia, Kayke Santos Moreira, de 20 anos, e Vinicius Aparecido Paula Guedes, de 19, chegaram a ser socorridos ao Hospital Campo Limpo, mas não resistiram aos ferimentos. Segundo a Polícia Civil, nenhuma das vítimas tinha passagem pela polícia.

A chacina na zona norte foi registrada no 73º Distrito Policial (Jaçanã), e a da zona sul, no 89º DP (Jardim Taboão). Ambos os crimes serão investigados pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).

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