Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Elas não descem do salto nem na praia

Adeptas sofrem efeitos do uso constante; Festival de Cannes barrou quem optou por sapatos baixos

PAULA FELIX, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2015 | 08h43

O salto número oito é o mais baixo que a empresária Raquel Bertoncini, de 37 anos, costuma usar. Apaixonada pelo tipo de calçado desde a infância, ela evita sapatilhas e fica nas alturas até em momentos de descontração. "O meu chinelo de praia tem salto, mas ele é apropriado, de borracha. Eu não me sinto bem vestida se não estiver com salto alto", afirma.

Os sapatos de salto alto viraram tema de debate após atrizes terem dito que foram barradas no tapete vermelho do Festival de Cannes por estarem sem o modelo de calçado neste mês. Embora seja uma defensora da liberdade de escolha na hora de se vestir, Raquel está entre as mulheres que não abrem mão de alguns centímetros a mais. "Eu não faço loucuras, gosto de um sapato alto, mas confortável. Eu me sinto mais feminina e mais confiante."

Mas a paixão também já rendeu problemas. "Eu usava quando estava em casa e, como moro em apartamento, tive até reclamação do prédio." Ela também foi diagnosticada com encurtamento de panturrilha. "Comecei a fazer pilates há dois anos e descobri em um teste de flexibilidade. O ideal seria que eu não usasse tanto salto."

Segundo Maurício de Moraes, médico ortopedista do Hospital Bandeirantes, 90% das mulheres que gostam de sapatos com salto continuam usando mesmo depois de sentir desconforto. "O peso do corpo é distribuído em proporção de 70% no calcanhar e 30% na frente do pé. Com o salto, essa proporção é invertida." Moraes afirma que dor, joanetes e encurtamento do tendão estão entre as complicações associadas ao uso do calçado.

Coordenador do núcleo de ortopedia do Hospital Samaritano, Luiz Fernando Cocco diz que os saltos prejudicam outras partes do corpo. "Eles projetam o corpo da mulher para a frente e causam dores e complicações nos joelhos e na coluna, principalmente na região lombar."

Conforto é algo que a dermatologista Carla Bortoloto, de 37 anos, busca ao comprar seus sapatos. "Não uso saltos muito altos durante o dia, evito bico apertado e uso meia-pata (calçado com plataforma na planta do pé). Invisto no salto porque me sinto perdida quando estou sem."

Carla não concordou com a proibição em Cannes. "Foi um exagero, algo para criar polêmica. Sou a favor de que as pessoas escolham usar ou não o salto. A mulher tem de se sentir bem."

A advogada Danielle Campos Lima Serafino, de 37 anos, usa o modelo apenas para trabalhar. "Eu vejo o salto como uma parte do uniforme. Chego em casa e tiro o sapato. Mesmo na mesa do trabalho, fico descalça."

História. Márcia Merlo, coordenadora do Museu da Indumentária e da Moda (MIMo), diz que, historicamente, o salto alto foi usado para reforçar a imagem de quem o usava. "Na Corte francesa, ele tinha uma função de poder até porque os próprios reis usavam. O salto demarcava beleza, classe social e impunha uma postura, mas é uma inscrição cultural que está introjetada na mulher."

A estilista Beatriz Cori afirma que, atualmente, a mulher tem a liberdade de escolher como vai montar o seu look, mas que há ocasiões que pedem o calçado. "É uma peça fundamental para eventos de gala. Há sapatos baixos muito bonitos, mas o salto alonga a silhueta, afina as pernas e a mulher dificilmente não se sente bonita quando está usando salto alto."

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