Tasso Marcelo/AE
Tasso Marcelo/AE

''Ela tinha um problema muito sério: não tinha medo. E era linha-dura mesmo''

PERFIL

Bruno Boghossian, Felipe Werneck e Tiago Rogero, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

Patrícia Lourival Acioli, juíza assassinada em Niterói

RIO

Conhecida pelo rigor e por uma atuação definida como rápida e linha-dura, a juíza Patrícia Lourival Acioli ganhou notoriedade ao condenar policiais militares acusados de liderar grupos de extermínio e de forjar autos de resistência (mortes em alegados confrontos) em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.

Em setembro, ela foi responsável pela prisão de quatro PMs acusados de integrar grupo de extermínio investigado por 11 assassinatos. Em janeiro, decretou a prisão de seis policiais do 7.º BPM denunciados por homicídio, em casos antes registrados como autos de resistência.

Anteontem, pouco antes de ser morta, havia determinado a prisão preventiva de um grupo de PMs por homicídio duplamente qualificado em decorrência de autos de resistência.

"Ela achava que combater essas milícias e grupos de extermínio era uma missão, que ela era uma justiceira", disse uma defensora pública. "Ela costumava dizer que detestava matador e PM matador era um milhão de vezes pior." A defensora, que pediu para não ser identificada, chegou a representar réus julgados por Patrícia, mas as duas se tornaram amigas. "Ela era extremamente competente e era linha dura mesmo. Em alguns casos, era muito difícil trabalhar, porque ela dava penas altíssimas."

Mesmo após as ameaças, a juíza manteve o pulso firme, lembra a amiga. "Ela tinha um problema muito sério: não tinha medo. Eu dizia para ela trocar a vara criminal por uma de família, mas ela acreditava que aquela era a vida dela."

"Áspera". Patrícia começou a carreira como defensora pública na Baixada Fluminense e ingressou na magistratura em dezembro de 1992. Em 1999, foi promovida a juíza da 4.ª Vara Criminal de São Gonçalo, onde atuava havia 12 anos.

Parentes de policiais julgados por ela criticavam sua atuação, afirmou o deputado estadual Flávio Bolsonaro (PP-RJ), que disse ter recebido denúncias sobre a conduta de Patrícia. "A forma como ela conduzia as sessões era muito áspera. Ela chamava os réus de bandidos, beirando o abuso de autoridade", disse o deputado. "Repudio a atitude que foi tomada contra ela, mas ela tinha essa forma de trabalhar que criou várias inimizades."

Bacharéis que atuaram com Patrícia rebateram o deputado. "Ela jamais agiu de maneira desrespeitosa com o réu. Era educada e nunca criou nenhum desentendimento."

Medo. Em entrevista ao jornal O Globo, Patrícia declarou: "Não tenho medo de ameaça. Quem quer fazer algo vai e faz, não fica ameaçando. Ninguém morre antes da hora. Sei que, no imaginário popular, a juíza é quem faz tudo, mas é a polícia que investiga, são os promotores que fazem a denúncia e é o júri que julga."

A reportagem, publicada em 2010, recebeu o título Uma Juíza Linha-dura no Caminho dos PMs. Apesar de ter declarado não temer ameaças, não permitiu que seu rosto fosse fotografado para preservar a família. Patrícia era a única a julgar homicídios em São Gonçalo. O Tribunal de Justiça disse que três juízes vão atuar na 4.ª Vara Criminal.

Patrícia tinha 47 anos, três filhos e namorava o policial Marcelo Poubel.

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