Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Ela só queria uma rua para os filhos brincarem

Depois de muita insistência, Dirce Vieira conseguiu criar a primeira rua de lazer de SP, em 1977

Edison Veiga, de O Estado de S.Paulo,

25 Março 2012 | 03h03

SÃO PAULO - "Se esta rua fosse minha" não é apenas uma cantiga infantil para a aposentada Dirce Vieira, de 81 anos. Em 1977, depois de anos e anos de insistência, ela conseguiu uma rua para chamar de sua. "É nossa", corrige ela. "Pois nela brincam as crianças de toda a vizinhança."

A rua é a pequena Manoel Faria Inojosa, em São Miguel Paulista, na zona leste, onde Dona Dirce, apelidada de "tia da rua" pelos vizinhos e amigos, mora desde o início da década de 1950 - "quando era só um matagal", recorda-se. Em 1977, após 12 anos de insistência mensal na Prefeitura, ela conseguiu o direito de interditar a via nos domingos e feriados, para que a criançada pudesse brincar em paz. Estava inventado o conceito das ruas de lazer: hoje, há 1.245 vias que funcionam, oficialmente, assim na cidade.

"Eu só queria que meus filhos pudessem brincar, jogar bola, se divertir com segurança. Naquele tempo, nem havia muitos carros, mas charretes e carroças passavam o tempo todo", conta. Dona Dirce fez isso por amor. Amor de mãe. Mãe de 18 filhos. Mas na Rua Manoel Faria Inojosa também se divertiram (e se divertem) seus 35 netos, nove bisnetos e tantos filhos, amigos dos filhos, sobrinhos, netos, enfim, toda a criançada da vizinhança. E nas outras tantas ruas de lazer que se espalham por São Paulo? "Nem penso nisso, não. Nunca conheci outra rua de lazer. Estou feliz aqui", limita-se a responder, modesta e simples.

Funcionamento. Atualmente, há um trâmite protocolar para que uma rua possa ser fechada nos domingos e feriados. É preciso que pelo menos 70% dos moradores aprovem a ideia. O pedido deve ser encaminhado à subprefeitura mais próxima. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) também dá o aval e fornece a placa, sinalizando que aquela é uma rua de lazer.

"Esse tipo de iniciativa é muito importante em cidades como São Paulo, onde o espaço doméstico está cada vez menor", defende a pedagoga Silvia de Mattos Gasparian Colello, especialista em Psicologia da Educação e pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). "Essa vivência na rua tem um impacto não só na perspectiva motora e do desenvolvimento físico da criança, mas também na questão social - no encontro e convivência com os outros é que se aprende a lidar com regras, critérios e a respeitar a vez em um jogo ou brincadeira, por exemplo."

O aspecto lúdico também é valorizado por especialistas. "As brincadeiras são um elemento importante da manifestação humana. E é na rua que as crianças andam de carrinho de rolimã, jogam queimada, empinam pipa...", diz o educador físico e pedagogo Marcos Garcia Neira, também pesquisador da USP.

Dona Dirce não pensava em nada disso quando conseguiu criar a rua de lazer. "Acreditava que existiriam outras, mas não tantas como você está dizendo que existem hoje", admite. Mineira de Machado, ela mudou-se para São Paulo em 1943, aos 13 anos, pouco depois da morte da mãe. "Vim morar com minha avó", conta a "tia da rua". Nunca mais saiu de São Miguel Paulista. "Não sei se gosto ou não de São Paulo. Sei que me acostumei, né? Todos os meus filhos foram criados aqui."

A criação dos filhos é seu grande orgulho. Quando ficou viúva, em 1980, muitos achavam que ela não daria conta de sustentar a família. Dona Dirce tirou de letra. Seguiu trabalhando como analista química em uma indústria do setor, da qual se aposentou em 1996 - na juventude, ela fez um curso técnico da área - e assumiu de vez o comando do barzinho na frente da sua casa, antes tocado pelo marido. O Bar dos Gois, sobrenome do marido, Osvaldo, funciona até hoje. Parada quase automática para o refrigerante da criançada nos domingos e feriados. / COLABOROU ADRIANA FERRAZ

Depois de muita insistência, Dirce Vieira conseguiu criar

a primeira rua de lazer de SP, em 1977; hoje, há 1.245

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.