Ela leva fantasia para crianças da periferia

Aos 61 anos, a cantora e escritora Dulce Auriemo encanta a garotada com as [br]aventuras mágicas de seus 18 personagens; desde 2002, já fez mais de 200 shows

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

05 Dezembro 2010 | 00h00

Era uma vez uma senhora de maviosa voz que podia muito bem se contentar em ser apenas mais uma socialite paulistana, no dolce far niente com que tantos sonham. Mas ela decidiu aproveitar a paixão pela música para encantar crianças. Principalmente moradoras da periferia. E, assim, começou a tirar do papel e trazer para o mundo real o seu próprio conto de fadas, com 18 personagens, muitas melodias e inspiração.

Estamos falando de Dulce Auriemo, de 61 anos, mulher do médico e empresário Caio Auriemo, um dos fundadores dos laboratórios Delboni Auriemo - sem participação na empresa desde o ano passado. Mãe de quatro filhos, avó de quatro netos, Dulce resolveu, há oito anos, transformar em carreira temporã a veia artística antes cultivada apenas como hobby familiar.

"Ainda criança aprendi piano, era algo que fazia parte da educação naquela época", recorda-se ela, filha de um engenheiro civil com uma artista plástica, que costumava passar os dias da infância na casa da avó, a uma quadra da Avenida Paulista, ouvindo uma tia concertista estudar música. "Aquilo me deslumbrava", completa. Na adolescência, trocou as teclas pelas cordas e, violão debaixo do braço, tornou-se atração da turminha - integrada por gente como Luiz Furlan, que entre 2003 e 2007 seria ministro do Desenvolvimento e, dois anos atrás, presenteou Dulce, em seu aniversário, com um violão novo, em referência ao passado em comum.

Nos anos 70, após o casamento, Dulce começou a compor musiquinhas infantis. Despretensiosas, serviam para agradar aos filhos e seus amigos. Eram uma distração lúdica e criativa. "Tudo virava canção", lembra. "O sorveteiro, a abelhinha, a pomba..." As crianças gostavam. E a mãezona coruja continuava aprimorando seus conhecimentos musicais. "Então comecei a ter aulas de violão com o Paulinho Nogueira, o que era um sonho para mim", conta ela, que foi aluna por 15 anos do músico morto em 2003. E parceira. Tanto que agora prepara o lançamento de um CD com seis canções inéditas que compôs com ele nos anos 80.

Espantaxim. "Eu queria deixar um legado para meus netos. Que eles se lembrem de mim como uma avó apaixonada pela música." Com essa motivação, Dulce decidiu gravar suas composições, em 2002. Fundou uma editora e selo fonográfico e lançou Espantaxim e o Castelinho Mágico, livro com CD encartado, contendo 14 canções. Os arranjos, assinados por Amilton Godoy, do grupo Zimbo Trio, era o início de uma parceria e amizade que duram até hoje.

Começou apresentando-se em livrarias paulistanas, para divulgar o trabalho. Então recebeu o convite de Jô Clemente, presidente de honra da Apae, para fazer um show na instituição. "Aquilo me sensibilizou. Percebi que era muito mais gratificante fazer um trabalho beneficente, levando meus personagens e minha fantasia a crianças que não têm acesso a uma Disney", relata Dulce. "Fez tudo de maneira esplêndida, passando para essas crianças todo seu amor e carinho. Tenho uma enorme admiração por ela", confirma Jô.

A partir daí, Dulce começou a peregrinar por escolas, CEUs e instituições. Com seus livros - já são dez, cinco deles com CD incluído - e suas músicas. "No início, me espantava como São Paulo é enorme", comenta ela, que vive em uma apartamento no Jardim Europa. "As pessoas costumam ficar restritas a seus bairros e não conhecem a imensidão que existe na periferia."

Nos shows, uma equipe se fantasia com bonecos representando cada um dos 18 personagens. "É quando minha fantasia sai do papel e ganha vida", comemora.

O trabalho ganhou a admiração de gente de renome. Na apresentação de seus livros, abundam comentários elogiosos. "Dulce Auriemo é uma revelação. Revelação de poeta, de compositora e de pessoa... Pessoa doce como seu nome", derrete-se a escritora Tatiana Belinky. "Dá uma inveja saudável para quem compõe", afirma o compositor e cantor Toquinho. Outro atestado de qualidade veio em 2009, quando seu livro Meu Primeiro Álbum de Piano Solo ficou em 2.º lugar na categoria "Didático/Paradidático" do tradicional Prêmio Jabuti.

Toda essa vivência tem nome: Projeto Espantaxim e o Castelinho Mágico. Totalmente beneficente. Dulce nem faz ideia de quantos livros e CDs já distribuiu, de graça, para escolas e instituições. Material que, com forte apelo paradidático, é utilizado na educação - não só musical - da criançada. E ajuda a levar um mundo colorido, cheio de imaginação e fantasia, para crianças que, em geral, não têm um horizonte muito mágico na periferia paulistana.

TRECHOS

"Vou fazer um espantalho/ E colocar na minha horta/ Vou deixar bem colorido/ Mas vai ter a cara torta..."

"Ele mora longe, numa aldeia do Xingu/ Bem no meio da floresta, onde canta o irapuru/ Onde tem onça-pintada, jabuti, tamanduá/ Ele brinca, ele dança, ele toca maracá..."

"Sou o sorveteiro/ Tenho fama de esperto/ Se vejo tanta criança/ Vou trazendo o meu carrinho/ E vou parando aqui por perto/ Quem quiser comprar sorvete/ Não precisa empurra/ Tem que entrar na fila/ Esperar só um pouquinho/ Sua vez já vai chegar"

"Existe um lugar/ Você vai conhecer/ E quando chegar/ Pode entrar sem bater/ A porta aberta vai sempre encontrar/ No alto da torre, um sininho a tocar/ No meu coração/ Bem guardado em mim/ Onde o amor/ Não tem fim, não tem fim/ Tem um castelinho pra gente brincar/ Já fiz seu cantinho, você vai gostar/ Tem água de coco, pãozinho de mel/ Pipoca, paçoca, sorvete e pastel/ Brinquedo, livrinho, fantoche"

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