'Efeito dos protestos virá no longo prazo'

Para docente da USP, as atuais manifestações não terão impacto imediato nem deverão afetar as eleições do ano que vem

Entrevista com

Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

19 Junho 2013 | 02h06

Assim como o historiador inglês Eric Hobsbawm (1917- 2012) usou a 1.ª Guerra Mundial para definir o início do seu "breve século 20", o professor de História Contemporânea da Universidade de São Paulo (USP) Lincoln Secco acredita que a atual onda de protestos pelo mundo - que começou com a Primavera Árabe, em 2010 - marca o início do século 21. Para ele, os protestos que têm tomado as ruas do Brasil estão dentro desse contexto e podem resultar, no futuro, em um novo modo de organização política. No curto prazo, porém, não devem ter força suficiente para impactar os partidos atuais e as eleições de 2014.

Como o senhor vê as manifestações no Brasil?

O primeiro fato inegável é que, desde 1992, é a primeira vez em que as pessoas voltam às ruas em uma amplitude como a atual. A década neoliberal de 1990 e os meios de comunicação decorrentes da informática esvaziaram as ruas. É surpreendente que agora as pessoas estão voltando a protestar usando as redes sociais.

Como se define esse protesto marcado pelo Facebook?

A comunicação em rede já está propagada desde o século 19. Mas antes ela se dava de maneira escrita ou falada e só as pessoas mais inclinadas a se politizar atendiam a esses apelos. A internet é um espaço de interação, mas também é dominada pelo mercado de consumo e isso acaba atraindo pessoas que saem às ruas apenas por festa. Talvez seja possível dizer que ganhou em quantidade, mas perdeu em qualidade.

São manifestações contra a classe política?

Qualquer manifestação contra a classe política teria apoio de massa em qualquer país hoje. Os políticos não gozam de boa fama por causa de um distanciamento que ocorre entre Estado e sociedade civil.

Há um sentimento antipolítico como o de países europeus em crise, como a Itália?

É um contexto parecido, mas acrescentaria outros fatores. Há grandes manifestações que ocorrem no mundo desde a Primavera Árabe e já chegaram à Europa e aos Estados Unidos. Elas mostram uma nova face desses movimentos, que é a ocupação das ruas sem uma direção definida. O Brasil não está isolado do resto do mundo e é influenciado por essa onda.

Isso significa um esgotamento dos métodos atuais de participação política e representação?

O movimento brasileiro é uma esfinge. Ele pede para ser decifrado. À primeira vista, observamos que há uma revolta positiva contra um sistema político arcaico que não representa a população. Talvez o fato negativo seja que as pessoas estão criticando o governo, mas não sabem o que pôr no lugar. À medida que você tem um movimento de massas espontâneo, perde a direção e abre espaço para que o movimento seja apropriado por forças conservadoras da ordem.

Qual a capacidade desses protestos de gerar mudanças na estrutura política?

Na história contemporânea, houve várias revoluções espontâneas, mas que em um certo momento acabaram sendo cooptadas por forças já estabelecidas. As manifestações dos estudantes no Chile, por exemplo, não derrubaram o governo. As revoltas árabes acabaram em governos que não representavam o que era pedido.

Aqui acontecerá o mesmo?

Duvido que essas manifestações possam afetar as eleições no ano que vem. Mas esse processo ainda está longe de terminar, está em andamento.

A expectativa então é para o longo prazo?

No curto prazo, isso não vai acontecer. Basta ver que o PSDB continua enraizado em certos lugares do País, em um certo público, assim como também acontece com o PT. É de se considerar, também, que o governo Dilma está fortemente enraizado em um setor da população que, aparentemente, não comparece em massa a essas manifestações e não compartilha desse sentimento antipolítico, pois vê com bons olhos os programas sociais do governo.

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