Educador defende ação em liberdade

Criação de vínculo e diálogo servem para 'mudar de vida'; integrante da ONG Sonhar sugere a troca de 'hábitos, pessoas e lugares'

O Estado de S.Paulo

10 Novembro 2013 | 02h07

Luciano era dependente químico e tinha problemas com álcool. Já havia sido internado seis vezes e parecia fadado ao caminho do crime. Uma amiga pediu ajuda ao educador social Marcos Lopes, de 30 anos, da ONG Sonhar, do Capão Redondo, na zona sul, que há dois anos tenta tirar jovens do tráfico.

O ano era 2011. "Eu cheguei na casa dele e o encontrei todo sujo em cima da cama, largado. Ele estava em péssimas condições", conta Lopes. Os dois começaram a conversar. Mostraram suas tatuagens um ao outro. Luciano tinha o rosto de Mano Brown, líder dos Racionais MC's, desenhado no braço. Marcos percebeu que havia aparecido uma brecha para o resgate. "Se você se internar, eu apresento o Brown para você", disse Lopes, que conhecia o rapper de antigas parcerias no Capão. Luciano topou, conheceu o cantor e foi mudando aos poucos de vida. Hoje, trabalha como segurança.

Outro educador social da Sonhar, Alex Sandro Gomes de Lima, de 32 anos, diz que o resgate depende de mudar "hábitos, pessoas e lugares" que costumam estar associados à vida das drogas. Mas o principal, segundo avalia, é a criação de vínculos. "É preciso ter um diálogo sempre transparente. Você deve inspirar confiança e tentar entender o que pode ser importante para motivar a pessoa a mudar de vida."

Os educadores sociais acreditam que a internação pode funcionar em caso de atos infracionais violentos. Mas defendem que para o tráfico a medida deve ser aplicada em meio aberto.

Outro exemplo. Guilherme, de 17 anos, havia sido levado à Fundação Casa há um mês e atualmente precisa ir à Justiça semanalmente para contar a uma assistente social como está a vida do lado de fora. Ele tem participado de atividades no projeto Sonhar e nos fins de semana presta serviço em um hospital, onde ajuda pessoas em cadeiras de roda. "É importante conhecer gente com problemas diferentes dos nossos para a gente parar de reclamar", diz.

Desde os 13 anos no que ele chama de "vida loka", acabou abandonando a escola e ainda não aprendeu a ler. O que pretende fazer urgentemente, com a ajuda das instituições. Guilherme diz que já percebeu que a vida do crime e das drogas é ilusão. "Você fica sozinho, no veneno. Quero criar família e ser respeitado pela minha. Isso eu só vou conseguir fora do crime, trabalhando e ganhando meu salário." /BRUNO PAES MANSO

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