Eduardo Kobra, o artista da SP em 3D

Papai Noel da Avenida Paulista é a sexta pintura tridimensional do artista paulistano pelas ruas da capital

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2010 | 00h00

- Mãe, olha o Papai Noel! Parece de verdade!

Exclamações como esta, vinda de uma criança que talvez ainda acredite em Papai Noel, foram comuns nesta semana na esquina das Avenidas Paulista e Brigadeiro Luís Antônio. Ali, o artista plástico e muralista Eduardo Kobra, de 35 anos, fez sua mais nova criação em 3D: um Papai Noel entrando em um quarto de criança para deixar presentes.

É a sexta pintura em 3D nas ruas do artista paulistano, único na cidade a dominar a técnica. "Foram dois anos de várias tentativas em meu galpão (em Taboão da Serra) e muitos erros até conseguir", relembra Kobra. "Afinal, o que eu não podia era pagar o mico de errar na rua." Ele descobriu (e se encantou com) a técnica por volta de 2005, quando recebeu um e-mail que rodou a internet - muitos dos leitores também já o devem ter recebido - com imagens incríveis de pinturas em 3D feitas pelo artista inglês Julian Beever. "Não conseguia tirar aquilo da minha cabeça. Queria entender como ele fazia. Comecei a pesquisar", conta.

Em 2009, depois de muito ensaiar, fez sua primeira intervenção em 3D na Praça do Patriarca. "O (então secretário da Coordenação das Subprefeituras Andrea) Matarazzo tinha visto algo parecido na Europa e voltou querendo fazer em São Paulo. Aí me perguntaram se eu sabia de alguém que dominava a técnica. Disse que estava estudando e poderia conseguir."

"Eu o acho um artista muito bom. Sua obra é detalhista, extremamente bem feita", comenta Matarazzo, hoje à frente da Secretaria de Estado da Cultura.

A obra da Praça do Patriarca deu muita visibilidade ao artista. Entre outras coisas, foi convidado pelo programa Fantástico, da TV Globo, para fazer um painel ao vivo. O ex-pichador começava a trilhar um caminho de celebridade na arte urbana.

Street art. Assim como boa parte dos grafiteiros da cidade, Kobra começou pichando muros. Até os 14 anos, ele viveu no Jardim Martinica, bairro pobre da região do Campo Limpo. "Gostava de desenhar, mas não conhecia esse mundo da street art", comenta. Aos 12, com amigos, começou a pichar muros. "Fui detido pela polícia três vezes", recorda-se. Quando tinha 15 anos, viu um livro que mostrava o movimento grafiteiro no mundo. "Então, comecei a fazer desenhos nos muros, sem pedir autorização nenhuma, tudo escondido", diz. "Meu primeiro grafite foi lá no Martinica mesmo. Era um dinossauro." Hoje contabiliza mais de mil obras no currículo, 90% delas na cidade de São Paulo.

Os primeiros anos não eram nada estáveis. Kobra fazia de tudo: pintava camisetas, fazia desenho sob encomenda, qualquer coisa. "Não tinha um foco", admite, justificando que a versatilidade era motivada pela necessidade. No ano 2000, tomou contato com o trabalho de artistas como o americano Eric Grohe e o mexicano Diego Rivera. Foi um período de amadurecimento de sua própria arte. "Fiz um mural grande no muro da Igreja do Calvário, em Pinheiros, com uma cena inspirada na literatura de cordel." Começou a se especializar em painéis com profundidade e um apelo quase fotográfico.

A nova guinada veio em 2005, com o início do projeto Muro das Memórias. "Eu havia conseguido autorização do Shopping Center 3 (na Avenida Paulista) para pintar um painel na entrada. Aí vi uma exposição de fotos antigas da cidade e, como sou ligado em imagens retrô, tive a sacada", conta. Hoje já são mais de 20 criações de Kobra com cenas antigas de São Paulo espalhadas pela cidade. "O grafite normal não atrai os mais velhos. Esse tipo de pintura chama a atenção de gente de todas as idades", garante.

Ele jura que não ganha dinheiro com esses projetos mais autorais - como os da São Paulo antiga e os 3D. "Eles são pessoais e dão visibilidade", diz. "Ganho dinheiro com os trabalhos contratados por empresas e eventos."

Intoxicação. Há oito anos Kobra convive com uma grave intoxicação decorrente de metais pesados presentes nas tintas. "É a mesma coisa que matou Portinari", conta, referindo-se ao artista brasileiro que viveu entre 1903 e 1962. O tratamento é crônico - ele já chegou a tomar 16 comprimidos por dia - e os sintomas mais comuns são problemas gástricos e insônia. "Estou há dois dias sem dormir."

Talvez isso seja algo a motivá-lo a, ao contrário de outros artistas, não se fechar e querer passar adiante suas técnicas. "É comum que venha gente me procurar, querer trabalhar junto para aprender. Tem faculdades que me convidam para dar palestras, oficinas...", revela o artista. "Quero ver se, no ano que vem, monto uma escola de arte." .

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