''É um absurdo. Nem o Bush faria isso''

Artistas como Nuno Ramos, que participa da Bienal, condenam ação da entidade, mas jurista Ives Gandra Martins diz que obra é ''dano moral''

Nataly Costa e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

A nota pública em que a seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) condena a obra de Gil Vicente na Bienal causou polêmica nos meios artístico e jurídico. Também participante da mostra, o artista plástico Nuno Ramos condenou a atitude da entidade. "É um absurdo, só um débil mental não percebe a diferença entre um objeto simbólico e uma apologia. Nem o Bush faria uma coisa dessas."

Um dos "assassinados" na série, o governador de Pernambuco e candidato à reeleição, Eduardo Campos (PSB), também é contrário à proibição. "Ainda que a tela me incomode pessoalmente, não posso ser contra a liberdade de expressão artística", disse. A reportagem também procurou FHC e Lula, mas não conseguiu contactá-los.

Para o crítico de arte Jacob Klintowitz, o que agride a imagem de um presidente é a quantidade de escândalos em que se envolve. "Um artista como o Vicente tem anos de carreira e de repente é desrespeitado com essa atitude moralista?", questiona.

Desmoralização. O jurista Ives Gandra Martins não vê da mesma forma. "Se eu resolvesse fazer uma tela colocando a mãe do artista em um prostíbulo, estaria atacando a dignidade dela. Uma coisa é a livre expressão; outra, a desmoralização de uma pessoa."

Na nota enviada à Bienal, a OAB-SP afirma que "não se pode impedir que uma obra seja criada, mas se deve impedir que seja exposta à sociedade em espaço público se tal obra afronta a paz social". Na opinião de Martins, os quadros de Vicente dão margem até para que FHC e Lula peçam indenização. "Isso não é obra de arte, é dano moral."

O presidente da OAB-SP, Luiz Flávio Borges D"Urso, também alega que a obra extrapola limites: "A arte desperta sentimentos negativos, e isso não me parece adequado dentro da legislação brasileira", diz. O Instituto dos Advogados de São Paulo (IASP) também enviou nota de repúdio à obra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.