É preciso restringir o tráfego de caminhões?

Especialistas opõe suas opiniões sobre as medidas de restrição de circulação de caminhões na cidade de São Paulo.

, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2010 | 00h00

Jorge Hori

 

CONSULTOR EM PLANEJAMENTO E GESTÃO EMPRESARIAL, ESCRITOR E EDITOR DO BLOG INTELIGÊNCIA ESTRATÉGICA

Sim: Restringir a circulação de caminhões dentro da cidade de São Paulo é uma medida necessária, mas não é suficiente.

Caminhões não estão simplesmente passeando. Circulam porque exercem uma função fundamental para a vida da cidade: a logística. Uma restrição extrema poderia levar ao desabastecimento dos bens de consumo, com prejuízo para população.

A circulação dos caminhões e abastecimento poderia ser feita à noite, principalmente no período entre 22 e 6 horas. É uma janela para as operações logísticas mais que suficiente. No entanto, a operação noturna traz consigo efeitos negativos, como a insegurança, o aumento de custos com horas extras de funcionários e o incômodo da vizinhança com o barulho das operações.

A estratégia da Prefeitura tem sido a da restrição e ajustes. Baseia-se na crença de que o mercado se ajusta às restrições. O que é fato, mas podem criar efeitos perversos, com resultados piores para os moradores da cidade.

São Paulo tem um orla ferroviária que está subutilizada e para a qual estão previstos grandes empreendimentos imobiliários, soterrando de vez a função logística que já tiveram as ferrovias.

Uma alternativa do planejamento e operação logística está na criação de um polo de centros de distribuição nessa orla, com o suprimento das cargas volumosas, associadas a centros de concentração.

A logística de abastecimento da capital paulista deveria ter obrigatoriamente uma perna ferroviária.

Manoel Sousa Lima Júnior

 

PRESIDENTE INTERINO DO SINDICATO DAS EMPRESAS DE TRANSPORTE DE CARGA DE SP (SETCESP)

Não. São Paulo é uma cidade extremamente motorizada. Emplacam-se na cidade, diariamente, mais de 1,2 mil veículos, ao passo que são registradas pouco menos de 900 crianças nascidas. O debate tem de começar por aí. Não adianta criar restrições e colocar a culpa nos caminhões pelo trânsito caótico sem antes olhar para a cidade de forma mais cuidadosa. Do momento que levanta da cama até a hora em que vai dormir, a pessoa usa produtos e serviços que só chegam a ela pelo setor de transporte.

Retirar os caminhões das ruas, além de ser uma medida restritiva e nociva ao próprio andamento da economia, não ameniza o transporte individual, que se instaurou em detrimento do transporte coletivo de qualidade. As cargas nunca poderão deixar de chegar a seus destinos, caso contrário, haverá falta de produtos no comércio, gerando diversas outras consequências para a vida dos consumidores.

No caso dos Veículos Urbanos de Carga (VUCs) ? que são caminhões de até 6,3 metros entre para-choques e que estão proibidos de trafegar no centro expandido ? a medida se mostra ainda mais inadequada. Os VUCs têm capacidade de carga de até 4,5 toneladas. Outros veículos menores, como vans, caminhonetes e utilitários, carregam, no máximo, 1,5 tonelada por viagem, ocupando 80 cm a menos nas ruas. Veículos de passeio do tipo SUV (utilitários esportivos) são liberados, e muitos têm medidas parecidas, com mais de 6 metros entre para-choques. Proibir o VUC no centro expandido é pôr mais motores a diesel rodando nas ruas, aumentar o custo operacional do transporte urbano de cargas e gerar mais dificuldade para que cheguem ao comércio. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.