''É possível um julgamento justo e honesto? A resposta é não''

Um dos mais brilhantes criminalistas de sua geração, Roberto Podval está acostumado a casos polêmicos. Atuou na defesa de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, acusado de mandar matar o prefeito Celso Daniel. Advogado desde 1988, ele tem três filhos e está "convicto" de que será impossível haver um julgamento justo para Alexandre Nardoni e Anna Carolina.

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

21 Março 2010 | 00h00

Como enfrentar as ideias preconcebidas do júri?

Temos de tratar a matéria da forma mais honesta possível e, dessa forma, posso afirmar que as pessoas vão a esse júri absolutamente prontas para uma condenação. O grande problema de um júri como esse é que não é honesto imaginar que teremos um julgamento justo. Receio que este seja um jogo já jogado.

E o que um advogado faz numa hora dessas?

Só dá para entrar nesse júri com alguma chance de êxito passando transparência, passando exatamente o que eu senti estudando este caso...

O quê?

Que não há absolutamente como condenar nenhum dos dois. Este caso tem provas técnicas; não tem testemunha presencial. O caso está pautado na perícia, que, desde o primeiro momento - e isso fica claro lendo o processo - parte da culpa do casal para chegar ao resultado. Isso parece aquelas declarações de imposto de renda que o sujeito, quando chega no fim do ano, para fechar a contabilidade, parte do fim para o começo.

E o senhor acha que essa conta não fecha?

Não, não fecha. O problema não é o que se mostrou tecnicamente. O problema é como se interpreta isso. A interpretação que se deu é para fechar uma história. E o que a gente vai fazer é tentar demonstrar isso. É mostrar ao júri que qualquer um de nós em uma situação duvidosa pode ser colocado como eles (os réus) foram, condenados sem julgamento, culpados sem elementos.

Esse crime virou espetáculo?

Virou um espetáculo de Idade Média. Parece aquelas mortes apregoadas em praça pública. As pessoas gostam de ver sangue. Não há preocupação de se fazer justiça, mas de vingar a morte da menina. É isso que vemos, com uma participação popular estranha, assustadora. Eis aí o problema: é possível um julgamento correto, justo, honesto nessas condições? A resposta para isso é não.

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