E o nordeste invadiu a Sapucaí

Cinco escolas do Rio investem em desfile 'arretado' e entram no sambódromo sem medo de repetir nem alegoria

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de fevereiro de 2012 | 03h00

Nos anos 60, o supersticioso mundo do samba acreditava que falar sobre a Bahia dava azar, uma vez que toda escola que escolhia o tema não passava do terceiro lugar. A maldição logo caiu, e ontem a Imperatriz e a Portela cantaram a cultura e a religião baianas com o entusiasmo carioca misturado ao da terra dos trios elétricos.

O Nordeste passou na Marquês de Sapucaí também na Beija-Flor, que foi além: até São Luís do Maranhão de Alcione, do reggae, dos mitos e de Joãosinho Trinta, seu carnavalesco-símbolo, que morreu há dois meses.

Esta noite, a viagem é pela fantasia da literatura de cordel, típica da região, tema do Salgueiro, e pela obra monumental do pernambucano Luiz Gonzaga, revista pela Unidos da Tijuca.

Para as escolas do Rio, o Nordeste é terra fértil. Desde 2000, os enredos ligados à região renderam dois campeonatos: à Imperatriz, em 2001, que viajou a Pernambuco, e à Mangueira, no ano seguinte, que abarcou toda a "nação" nordestina. Na era sambódromo (de 1984 para cá), foram cinco. Na Sapucaí, como se sabe, tudo se recicla, e os carnavalescos não acreditam que público e jurados vão se cansar.

Arretado. O Salgueiro promete um desfile arretado. Quer inovar mesmo trazendo de volta à avenida personagens que já desfilaram em outros fevereiros, como Maria Bonita - a fantasia das baianas -, Lampião - roupa dos ritmistas - e Padre Cícero. O Pavão Misterioso transformou-se em uma geringonça grandiosa. A mula sem cabeça e o lobisomem também saíram das rimas e versos para o carnaval.

"Cada um tem seu jeito de contar", entende o carnavalesco Renato Lage, há dez anos na escola, e que hoje quer ver sepultadas as más lembranças do ano passado (o Salgueiro fez um desfile deslumbrante, mas acabou atrasando dez minutos, por causa do tamanho exagerado dos carros alegóricos, que tiveram dificuldade para entrar no sambódromo).

"A gente vai traduzir esse universo lúdico que vem dos poetas nordestinos, que trata do dia a dia de forma bem humorada. O cordel é tão interessante que deveria ser implementado nas escolas", diz Lage. A bateria arriscou-se ao incorporar a zabumba, a sanfona e o triângulo.

Gonzagão e Paulo Barros. Os ritmistas da Unidos da Tijuca não chegaram a investir em instrumentos emprestados do baião, mas capricharão no surdo de terceira para remeter ao som que fez a fama do rei do baião e do forró.

O sempre inovador Paulo Barros atrai as atenções para seu primeiro enredo biográfico na escola que lhe deu projeção. Mas ele fugiu do desfile cronológico, e do óbvio: vai, sim, mostrar a arte popular nordestina, com alegoria e fantasias evocando os tons de barro de Mestre Vitalino e o colorido das festas juninas e das festas dos vaqueiros. Entretanto, escolheu lembrar reis os mais diversos, de Cleópatra, Luiz XV e d. João VI ao rei do futebol, Pelé, e à rainha dos baixinhos, Xuxa. Todos participarão da coroação de Gonzagão.

"Para falar dele, precisaríamos de duas escolas de samba, tamanha é a obra. Escolhemos tratar da coroação desse rei Luiz do sertão. É uma grande festa, e toda a realeza está convidada", brinca o carnavalesco. É a primeira vez que o enredo da Tijuca não é de sua autoria, e se especulou que Barros estaria circulando desanimado pelo barracão.

Repetição. O Nordeste é enredo desde o início da competição entre as escolas de samba, há 80 anos. A Bahia, especialmente. Os carnavalescos negam que lhes falte criatividade: alegam que isso se dá por causa da diversidade cultural da região.

"Nunca vai ser igual, mas quando há coincidência é até bom, porque as pessoas comparam e dizem qual foi melhor", defende o experiente Max Lopes, da Imperatriz. A escola levou à Sapucaí alegorias comuns com a Portela: um carro do Pelourinho praticamente idêntico e imagens de orixás e igrejas semelhantes. A primeira tratou de Jorge Amado e a segunda, da própria Bahia. "A sinopse ficou muito parecida, mas isso não nos preocupou."

Laíla, diretor de carnaval da Beija-Flor, não acha que haja redundância neste ano. "Da minha parte, tenho certeza de que não há nada repetitivo. Cada qual que faça o seu melhor", desafia. "O Brasil é fonte inesgotável de inspiração, não há necessidade de se ir para o exterior para buscar caminhos para o carnaval. A própria história de São Luís não se esgota aqui com a Beija-Flor."

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