''É o momento de legitimar a dor, acomodar e seguir em frente''

ENTREVISTA - Cristina Werner, psicóloga especialista em atendimento a vítimas de tragédias

Fernando Paulino Neto, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2011 | 00h00

Hoje, quando alunos da Escola Tasso da Silveira retornarem às aulas, enfrentarão o desafio de voltar à realidade após terem vivenciado cenas violentas contra eles mesmos e seus colegas. Para a psicóloga Cristina Werner, especialista em atendimento a vítimas de catástrofes, o momento é de "legitimar a dor, acomodar e seguir em frente". Integrante do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica, ela trabalhou nas tragédias do Morro do Bumba e de Nova Friburgo e espera autorização para atuar em Realengo.

Qual a diferença de trabalhar em tragédia natural e massacre?

Não existe "dorômetro". Não dá para medir dor de ninguém. Mas teoricamente essa dor é pior. Quando é fúria da natureza, fica a impressão de que não se poderia fazer nada para evitar. A tragédia é mais palatável. Quando acontece pela mão do homem, como no 11 de Setembro, nos mineiros do Chile, na chacina de Columbine e agora em Realengo, a sensação de vulnerabilidade é muito maior. Já recebi relatos de crianças em outras escolas de outros bairros que não querem ir à aula. Entre quem esteve lá, depois vem a culpa: "Era meu amigo, eu não fiz nada. O que eu poderia fazer diferente?" Essa questão da culpa é muito pesada.

E como ela se manifesta?

Pesquisas mostram que 75% da população que passa por uma tragédia como a de Realengo vai passar ilesa. Tem uma resiliência, mas você consegue seguir e superar . É o "levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima", mas vão precisar de atendimento. Deles, 20% podem desenvolver estresse pós-traumático. E, mesmo com atendimento, 5% vão ter problema.

Como o estresse pós-traumático se manifesta?

Os sintomas variam de idade para idade, mas são esperados como reações naturais durante os dois primeiros meses. A pessoa fica mais chorosa, com dificuldade de comer, tem mais pesadelos. E é até saudável que tenha. Passar por uma situação dessas sem ter qualquer reverberação é até preocupante. A questão é ver se isso persistirá.

Como é a 1ª abordagem?

Normalmente, começamos assim: "Estamos aqui por causa desse fato que aconteceu na escola, onde algumas crianças foram mortas, outras sofreram tiros e a escola foi paralisada. Vamos começar dizendo onde estavam na hora da tragédia, quais foram os sentimentos. Então, as pessoas vão se reconectando, relembrando fatos e dificuldades que tiveram. Dizemos que é normal, mas, se persistirem, têm de procurar atendimento. É uma maneira de legitimar a dor, legitimar o luto. O objetivo não é esgarçar essa dor, mas acomodar para seguir em frente. Tentamos trabalhar acima de tudo a visão do futuro. Eu posso recomeçar, tentar, contar com minha família, com a igreja.

Muitos alunos estão com medo. Só dormem de luz acesa, não querem voltar à escola. Como tratá-los?

É compreensível. Mas, se a pessoa não conseguir ultrapassar, é um problema. Caso desenvolva fobia a ponto de não sair de casa, tem de ser atendido. Mudar de escola não resolve. Não devemos aceitar esse tipo de coisa. É muito importante voltar, transformar aquelas salas em atendimento especial. É importante ter memorial das coisas.

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