É o artista um cidadão acima de qualquer suspeita?

A arte oficial não consegue resolver seu paradoxo fundamental: diz que não há fronteiras, que tudo é lícito, desde, é claro, que sejam suas as fronteiras

Affonso Romano de Sant'anna, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

Artigo

A 29.ª Bienal está propiciando uma discussão que não pode ficar na superfície dos fatos. Há aí três mal-entendidos: a OAB prometendo processar o artista e/ou a Bienal por incitação ao crime e à violência, os curadores alegando que isto é "censura" e o artista acima do bem e do mal. Este episódio remete para algo conhecido no mundo antigo como "morte em efígie". Não se podendo destruir o réu, destruía-se sua imagem, arrasando sua memória. Mas não é a primeira vez que dentro da modernidade ocorre um crime semelhante. Em 1965, três pintores mataram Marcel Duchamp. Gilles Aillaud, Antonio Recalcati e Eduardo Arroyo pintaram oito quadros realistas nos quais surpreendiam Duchamp subindo uma escada, esmurravam-no, torturavam-no e jogavam-no escada abaixo nu. Duchamp, que propunha a morte da arte, não gostou de se ver morto ali. E analisando esse quadro/episódio em O Enigma Vazio (Ed.Rocco), eu dizia que não é matando, mesmo em efígie, o ícone da arte de nosso tempo que o entenderemos. O desafio é ir a fundo na sua vida&obra. A censurável violência dos três pintores insere-se no quadro violento dos anos 60/70, quando o pensamento totalitário à esquerda e à direita achava que pela força resolveriam problemas sociais e políticos.

Portanto, preservando-se o direito do artista se expressar, mas alertando para as consequências disto, não se pode deixar de ver na obra daquele artista pernambucano um paradoxal exercício da violência. A meu ver, deveríamos ter aprendido com a Revolução Francesa, com a russa, a chinesa e cubana, que cortar a cabeça dos líderes é inócuo. Por outro lado, ressurge aí a síndrome voluntarista, perversa e autoritária do "justiceiro" - figura que a sociologia estuda pertinentemente.

Isto posto é crucial trazer à discussão uma pergunta: É o artista um cidadão acima de qualquer suspeita, acima de todas as leis sociais? Lembre-se que a ditadura recente nos deixou uma marca deletéria: depois de tanta repressão, caímos na ânsia de repressão nenhuma. Mergulhamos no oposto. Por isto, o mote: "é proibido proibir", que tem o seu charme juvenil, é um paradoxo, pois proibir a proibição é exercitar a proibição e a censura, só que do outro lado.

Esta Bienal tem como tema "arte e política". Ora, falar da política convencional é fácil. Acusar políticos, verberar contra os militares, é banalidade. Eles são os "outros". No entanto, há um enfrentamento político, igualmente urgente, dentro das artes. É necessário questionar o sistema em que se baseiam. Isso consiste em rever o poder dos curadores, o sistema das galerias, as premiações, a crítica universitária e jornalística, a publicidade, a bolsa de valores, enfim, o "deus ex machina" que hoje, mais do que nunca, controla as artes - o mercado. A arte oficial não consegue resolver seu paradoxo fundamental: diz que não há fronteiras, que tudo é lícito, desde, é claro, que sejam suas as fronteiras e desde que sejam "eles" a decidirem o sistema que tutelam.

É ESCRITOR

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