Raquel Brandão / Estadão
Raquel Brandão / Estadão

‘É mais fácil pedir do que roubar’

Bruno, Eduardo e Edson se conheceram na rua; há três anos são a companhia e a proteção um do outro.

Raquel Brandão, O Estado de S. Paulo

13 Junho 2015 | 16h00

Bruno José da Silva

“Meu nome é Bruno José da Silva e o vulgo é Shayene. Tenho 25 anos. O cachorro chama Pitoco. Eu tenho ele faz mais de cinco semanas. Acostumou comigo, veio comigo. Eu estava chorando por causa de cachorro, por causa de gatinho pequenininho, e Deus abeçou eu e trouxe ele pra mim.

Eu moro na rua há mais de três, com eles. Vou falar a verdade pra todo mundo escutar: Eu sai de casa porque minha mãe não aceitava minha opção sexual e me assumi na rua. Ela não aceitava e, na rua, me aceitam.

Minha palavra não faz curva. Sou de Feira de Santana, na Bahia. Sou um acarajé quente, bem quente. Não tenho medo de nada. Vira e mexe eu vou pra casa, agora no Sul de Minas, porque minha mãe me aceitou, graças a Deus. É isso que prevalece. Eu quase quebrei ela no pau por causa de preconceito, mas mãe é mãe e é uma só, né? O forró 18, o Preguinho, é meu e dela. Fica lá na Rodovia Fernão Dias. É um forró lascado, é doido, daquele jeito divertido…

Eu trabalhava em Aparecida do Norte. Eu era organista, músico. Sabe por que eu perdi a profissão? Por um gole de cachaça. Mas eu vou conseguir tudo de volta, se Deus quiser. Antigamente eu não bebia nem fumava, hoje eu bebo mesmo. Bebo por causa do vício, não por ser mais fácil. Nada na rua é fácil.  

A vida na rua é muita humilhação. Você pede um pão e a pessoa não dá. Eu sou nordestino, lá não tem miséria. Agora, em São Paulo, as pessoas tudo ricão, que tem dinheiro e tudo, discriminam a gente. Quando morrer vai levar o que? Vai levar prédio, dinheiro?

Também tem muitas pessoas boas em São Paulo. Tem gente que ajuda, dá comida, traz a roupa, sopa… Mas tem o inferno do rapa. Já perdi muitas coisas por causa dos polícia, não quero perder mais.”

Eduardo Cerqueira

“Eu sou do Espírito Santo, terra do Roberto Carlos. Vou fazer 42 anos, sou o mais velho deles. Faz 24 anos que moro na rua. Depois que eu larguei minha ex-mulher, peguei pavor de ‘periquita’. Só gosto de travesti e homossexual. Não saí de casa por preconceito e minha família até me chamou para eu voltar.

Eu fiquei muitos anos na Cracolândia. Usei todo tipo de droga, só não apliquei heroína. Mas eu pensei bem e falei: ‘Isso não é pra mim, isso não tem futuro não’. Fui parando devagar e consegui. É só olhar pra cima, pro céu, e pedir, porque Ele sempre vai estar do nosso lado.

A vida na rua é difícil. Sabe como eu faço para conseguir um rango? Às vezes puxo carroça. Eu não cato latinha, mas cada um com seus problemas,né? E também vou pedir pra restaurante. Alguns dão, outros jogam fora e não dão nada pra ninguém. Mas é mais fácil pedir do que roubar.

A GCM [Guarda Civil Metropolitana] já tirou muita coisa nossa. Bolsas eu já perdi até a conta de quantas já me levaram. E no abrigo não dá. Lá você pega piolho, pega de tudo, porque é tudo misturado. Mas eu não tenho medo de ficar na rua não. Tenho fé em Deus. Eu rezo, rezo pra quem tá preso, pra quem me fez mal…

Eu queria ver meus filhos e meus netos. Tenho duas netas e um neto. Se eu fosse prefeito, eu ia fazer um prédio e colocar os que mais precisam. Quem tem dinheiro fala que a gente é vagabundo, ladrão. Uns mexem com droga, mas aqui tem muito pai de família passando fome.”

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