É inimaginável falar que a situação no Rio está pior que em SP

Análise: Paulo Saldiva

COORDENADOR DO LABORATÓRIO DE POLUIÇÃO , ATMOSFÉRICA DA USP, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2011 | 03h03

Os dados precisam ser interpretados com cuidado. O Rio tem um problema de poluição, mas considero inimaginável falar que é, como um todo, mais poluída que São Paulo. As medições dependem de quantas estações existem e de onde elas são colocadas. É provável que o Rio, por não ter uma rede tão grande de medidores quanto São Paulo, esteja focando em áreas problemáticas.

Em São Paulo há regiões muito poluídas, como no entorno da Avenida Salim Farah Maluf, com caminhões e carros antigos. O Rio também é dependente do automóvel e tem uma frota/habitantes parecida. Mas não tem desempenho tão negativo. Um estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP, entre 2007 e 2009, mostrou que a presença do material particulado era 30% menor no Rio em relação a São Paulo. Um dos fatores que beneficiam o Rio é a presença do mar, e do vento. Já São Paulo passa a ser considerada ainda pior quando você calcula o risco atribuível, que é o nível de poluição em relação ao número de pessoas.

São Paulo era muito mais poluída nos anos 80 do que hoje. Ela está como Los Angeles nos anos 70 em termos de partículas. Isso é coerente com o fato de temos legislação daquela época. Por que o estudo mostra que cidades americanas e europeias que antes também tinham problemas hoje apresentam bons resultados? Porque a mudança de legislação, com padrões mais rígidos, implica tomar medidas para melhorar o ar.

A OMS adota o limite de 20 microgramas por metro cúbico para material particulado. Os EUA consideram 30, e São Paulo, 50. As cidades brasileiras precisam adotar padrões mais rígidos. O Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) solicitou a mudança dos padrões. Um grupo da Cetesb fez força para isso. Mas o projeto parou na Secretaria Estadual do Meio Ambiente.

Ao mudar os padrões, é provável que uma medição de ar "regular" passe a ser "ruim". Aí, por lei, o governante teria de tomar medidas - que passam pela qualidade do diesel, uma política de incentivo para carros de tecnologia mais avançada, investimento em transporte público, inspeção veicular e ciclovias, etc.

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