'É claro que fiquei preocupada. Mas isso não vai influenciar o meu trabalho'

Magistrada, que já foi ameaçada outras vezes, diz que cidadão depende de uma Justiça forte, 'senão vira Velho Oeste'

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2012 | 03h03

Há 18 anos no cargo, a juíza Barbara Carola Cardoso de Almeida enfrenta sua terceira ameaça de morte. Confessa ter ficado preocupada, mas garante que não mudará sua postura. Para ela, o cidadão precisa de uma Justiça forte, que não ceda a interesses diante de ameaças.

Como foi a ameaça? Foi ameaça de morte mesmo, a ponto de eu precisar de escolta policial. Tivemos de levar a sério, infelizmente.

De onde pode ter partido? Fica difícil acusar alguém. Tudo indica que tenha a ver com a sentença (que determinou saída imediata de área ambiental em Embu das Artes). Um inquérito está sendo aberto. Fiz boletim de ocorrência, até porque não só eu fui ameaçada. A advogada autora da ação e o líder dos ambientalistas também foram.

Como foi? Via Copom (Centro de Operações da Polícia Militar). A PM recebeu a denúncia, por meio de telefonema anônimo. Informavam que havia essa ameaça de morte contra mim. Houve recomendação da corporação para que eu tivesse uma segurança um pouco mais reforçada. Moro na cidade. O juiz fica um pouco exposto.

Já tinha sido ameaçada antes?

Já, umas duas vezes. Mas foram coisas espaçadas. Estou aqui há 18 anos. A gente lida muitas vezes com processos do crime organizado. Há muitos anos, a ameaça foi por um processo criminal. Eram assaltantes de banco. Foi velada, comentários de que 'matariam a juíza'. Mas não cheguei a precisar de escolta.

Como é a escolta?

No começo, eram viaturas normais da polícia. Mas até já dispensei, porque estão apurando o caso. Seja lá quem fez a ameaça já deve saber que a gente sabe. Olha o transtorno que isso causa: ter de deslocar um efetivo da Polícia Militar para fazer sua segurança. É complicado, cerceia sua vida.

A ameaça desta vez chegou a intimidar? Não chegou a intimidar, mas é claro que fiquei preocupada. A gente não sabe se realmente vão fazer alguma coisa ou não. Mas isso não vai influenciar o meu trabalho. Não vou deixar de decidir 'x' ou 'y' por isso. Foi esse o intuito do manifesto (em apoio à juíza), dizer que o juiz tem de ter independência para julgar, não deve favor a ninguém, não precisa ceder a interesse de ninguém. Caso contrário, acaba o estado democrático de direito. O cidadão depende de uma Justiça forte, senão vira Velho Oeste.

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