Dupla de cegos vai do interior ao litoral de SP de bicicleta

Trecho entre Jundiaí e Ubatuba será feito em 1 semana; eles serão acompanhados por guias em carro de apoio

Tatiana Fávaro, do Estadão,

14 de setembro de 2007 | 16h58

Após um ano de treinos intensos, dois cegos vão sair de Jundiaí, a 60 quilômetros de São Paulo, e pedalar até Ubatuba, no litoral paulista, a partir de sábado, 15. Os atletas Adejair Cordeiro, de 44 anos, e Antônio Alves, de 58 anos, vão percorrer aproximadamente 300 quilômetros durante uma semana. Os esportistas viajarão em bicicletas duplas, cada um com um guia. Um terceiro guia acompanhará a viagem em um carro de apoio.   Durante os sete dias de passeio, os atletas farão paradas em Atibaia, Igaratá, Santa Branca, Salesópolis e Caraguatatuba, até chegar a Ubatuba. Para conseguir completar o percurso, Cordeiro e Alves foram preparados em treinos que incluíam ciclismo, natação, corrida e musculação. "A gente se exercita cinco dias por semana", afirmou Cordeiro. Sua deficiência visual foi conseqüência de uma meningite, em 1993.   Após passar 98 dias no hospital (58, em coma) e de perder 50 quilos, Cordeiro não enxergou mais e mal conseguia caminhar."Ele chegou aqui e quase não parava em pé sozinho", afirmou a preparadora Romilda Maria de Moraes Roncoletta, uma das guias do passeio. Nos últimos 11 anos, Cordeiro já correu quatro vezes a São Silvestre e uma meia-maratona. E, sem falsa modéstia, diz que consegue pedalar até 80 quilômetros em um mesmo dia.   A deficiência visual de Alves também foi adquirida. Há 15 anos, ele sofreu uma inflamação no globo ocular e perdeu a visão. Casado e com quatro filhos, o então funcionário de uma empresa de autopeças se isolou: foi morar em Jarinu, sozinho, entrou em depressão e só voltou a ter atividades regulares e contatos sociais cinco anos depois do diagnóstico.   "Um dia senti que a vida continua", afirmou Alves. Ele procurou o Instituto Luiz Braille em Jundiaí e iniciou o que os profissionais chamam de processo de adaptação. Adaptou-se mesmo: Alves passará ao menos seis horas diárias em cima de uma bicicleta, na estrada, nos próximos sete dias. E vai encarar uma subida de nove quilômetros nesse percurso.   Quando enxergava, Alves chegou a visitar Ubatuba. Cordeiro, não. Desta vez, eles saberão como é a paisagem, qual a condição da estrada e outros detalhes da viagem por meio das descrições dos guias. "A gente tem de confiar neles. E como já enxergou um dia, fica mais fácil", disse Alves.   Os atletas integram um grupo de 230 deficientes do Programa de Esforço e Atividade Motora Adaptadas (Peama), da Prefeitura de Jundiaí, que praticam oito modalidades esportivas sob orientação profissional.

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