Filipe Araújo/AE
Filipe Araújo/AE

Duas cidades decretam calamidade no Vale do Ribeira; 15 mil vivem drama

Nível do rio subiu quase 5 metros com chuvas; municípios pedem água potável e material de higiene

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2011 | 16h56

REGISTRO - Sentada num desnível do barranco, a aposentada Aparecida Ribeiro dos Santos, de 66 anos, vigia as águas amareladas que vão marcando as paredes brancas de sua casa. À medida que o nível sobe, ela conta os prejuízos e vai ficando mais aflita. "Já pegou a geladeira, o guarda-roupa e agora está molhando o colchão. Logo o meu bujão vai boiar, pois está quase vazio." Dona Cida está entre os 15 mil moradores do Vale do Ribeira, região sul do Estado de São Paulo, atingidos pela enchente que, desde segunda-feira, mantém fora do leito o Rio Ribeira de Iguape.

 

Em Registro, onde mora, a cheia se avolumou de madrugada e, até a tarde desta quinta-feira, 4, tinha coberto parte da cidade e atingido 1.200 moradores, segundo da Defesa Civil. Na sua moradia, um casebre construído abaixo do nível da rua, na Vila São Francisco, ela não sabe a que horas a água entrou.

 

Conta que foi acordada às 5 pelo filho aos gritos: "Mãe, estamos no meio da água." Ela correu acudir a própria mãe, Brígida, de 94 anos, que é cega. Levada para um cômodo mais alto, a idosa teve de esperar a chegada de outra filha. Cida e o filho saíram às pressas, levando só algumas roupas e os documentos. Ela diz que não é sua primeira enchente. "Foram tantas que perdi a conta. Teve uma que bateu no telhado."

 

O Rio Ribeira invadiu ruas, terrenos baldios, praças e casas por toda a periferia de Registro, a 192 km da capital. Os bairros Valery, Vila Nova, São Francisco, Nosso Teto e Aly Correa foram os mais atingidos, mas as águas foram até o centro. A dona de casa Vitória Camila da Rocha, de 66 anos, estava fora e foi avisada pelos filhos de que a casa tinha sido alagada. "Encontrei móveis, roupas, geladeira, tudo do lado de fora."

 

Os vizinhos e parentes ajudaram as famílias a salvar roupas, eletrodomésticos e móveis. O pipoqueiro Joel da Rocha, de 35 anos, não teve a mesma sorte. "A água subiu muito rápido e não pude tirar nada." Não deu para salvar nem o carrinho de pipoca. Ele mora ali há seis anos e é a primeira vez que a água atinge a cama. Rocha tirava fotos dos estragos: ele se inscreveu num programa de casas para famílias em áreas de risco e ainda não foi contemplado.

 

 

Mais drama. Na Vila Nova, o pescador Lino de Souza Lima, de 48 anos, construiu um cômodo sobre a laje apenas para ocasiões como a dessa semana. "Quando a água cobriu o quintal, levei tudo para cima." Acostumado às enchentes - uma a cada dois ou três anos - ele mantém o barco de pesca na garagem para as emergências. Lima só não esperava que o rio fosse subir tanto.

 

Às 4 da manhã, pegou o barco e foi para a casa de um filho. "Vivo do rio, mas ultimamente não suporto nem ver água." O pescador usou a embarcação para resgatar moradores que ficaram ilhados. Uma das resgatadas, Tereza Xavier, foi transportada para terra firme com o bebê de dois meses no colo. Ele resistia em sair de casa, temendo os saques.

 

Nos bairros atingidos, adultos e crianças se concentravam na borda da cheia. Muitas pessoas preferiam ficar vigiando a casa a ir para os abrigos da prefeitura. "Se a gente sai, alguém pode invadir", disse Beatriz Bessa Perciliano, de 26 anos. Cavalos que abandonaram os pastos, cobertos pela enchente, dividiam o asfalto com os carros. Galinhas e frangos buscaram refúgio sobre os telhados.

  

A dona de casa Ângela Rosa Conceição, de 49 anos, preferiu levar toda a família - dez pessoas - para o Centro de Atenção Social da Vila Nova. "O problema é que não tem chuveiro." Outras 70 pessoas se abrigaram na Escola Municipal Alberto Bertelli, uma das cinco escolas municipais usadas como abrigo. As aulas foram suspensas e as merendeiras preparavam refeições para os desabrigados.

 

Ajuda. De acordo com o coordenador da Defesa Civil, Carlos Alberto de Lima Barbosa, 566 pessoas estavam abrigadas, enquanto outras 208 preferiram ir para casas de parentes. Informações que chegavam da zona rural davam conta de muitas famílias ilhadas. Pelo menos 30 já tinham pedido ajuda, mas as estradas tinham virado rio. Embarcações do Corpo de Bombeiros se deslocaram para bairros como o Chazal para realizar salvamentos.

 

 

A prefeita Sandra Kennedy (PT) percorreu as áreas atingidas na cidade. "Precisamos de roupas de uso pessoal, material de higiene e água potável", pediu. Às 16 horas, o nível do rio tinha se estabilizado em 5,91 m - o normal é de 1,67. O comerciante Raimundo Pereira de Paiva, 48 anos, que instalou um marco para medir o rio, estava na torcida. Mais alguns centímetros e as águas invadiriam seu mercadinho, na Vila Nova.

 

Encarregado de um porto de areia, Vilmar Kleszuzuk, de 50 anos, acompanha há quase 40 as cheias do Ribeira. Cada vez que o rio sobe, ele tem de suspender o trabalho e recolher as máquinas. "Da década de 70 para cá, tivemos pelo menos 25 enchentes", diz. A pior, ele se lembra, foi em 1997 quando o rio subiu 14 metros. "A água passou por cima da ponte da BR (Rodovia Régis Bittencourt)". Ele ouvir falar que aquela cheia superou a de 1937, que até então era considerada a pior. Outras grandes ocorreram em 1983 e 2004, mas nada comparada à atual.

 

Calamidade. Boletim da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil do Estado informava que, até esta tarde, nove cidades tinham sido afetadas pela enchente. Em Eldorado, oito mil pessoas foram afetadas, sendo que 4,5 mil continuavam desabrigadas e 1,5 mil desalojadas. Três bairros rurais estavam ilhados e 80% da produção agrícola foram destruídos. A prefeitura decretou estado de calamidade pública.

 

Iporanga tinha 150 desabrigados e 1,1 mil desalojados - mais de 2 mil pessoas foram afetadas. Em Jacupiranga, os 200 desalojados voltavam para casa, mas Barra do Turvo mantinha 12 pessoas num abrigo. Pariquera-Açu, com 80 desabrigados, Sete Barras (100 desabrigados, 400 desalojados e 1,1 mil afetados), Itapirapuã Paulista (6 desalojados) e Ribeira (500 atingidos e 100 desabrigados) completam a lista.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.