Dos Silva Prado aos Zé Manés

Histórias da garoa

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2010 | 00h00

Duas semanas atrás, ladrões invadiram um prédio de apartamentos na Avenida Higienópolis e assaltaram diversas famílias, espalhando medo entre moradores do bairro. A ousadia dos bandidos em São Paulo virou moda com esses chamados "arrastões". O clima de insegurança que havia nas casas chegou aos prédios.

Essa violência planejada alimenta, por outro lado, a criação de bunkers escondidos por muros e edifícios cercados por seguranças, câmeras, sensores, cercas eletrificadas. Vigora a sensação de uma vida em presídio. O contribuinte de vida regrada, preso; a marginália, na rua. E pior: nada garante 100% de tranquilidade, conforme se viu na ação criminosa de Higienópolis.

O bairro escolhido para o ataque dos malfeitores nasceu, como diz o nome, para fornecer uma vida limpa a seus moradores. Surgiu no fim do século 19. Era o cenário perfeito para famílias abastados que procuravam viver à francesa, o que as baixadas da cidade antiga não ofereciam.

"Os primeiros moradores faziam parte de um grupo de anglo-saxões que se incluíam entre os estrangeiros radicados em São Paulo desde meados do século 19", escreve Maria Cecília Nacléria Homem, mestre em História Social pela USP, no livro São Paulo em Mosaico (CIEE, 2010). Eram loteamentos planejados pelos comerciantes Martinho Burchard e Victor Nothmann, lembra a pesquisadora. Vendiam conforto na colina fresca.

A pesquisadora mostra que as casas eram amplas. A legislação criada para aquela área obrigava os donos a guardarem espaços para jardins e arvoredo. Uma das relíquias arquitetônicas desse bem-viver é o casarão da Rua Dona Veridiana com Av. Higienópolis.

Eram os tempos ricos do café. E o casarão era da família Silva Prado, do prefeito Antônio Prado, que governou São Paulo, e do intelectual Eduardo Prado. Foi Eduardo quem indicou à mãe, Veridiana, o francês Auguste Glaziou para a criação dos largos jardins da residência, lembra a pesquisadora Maria Cecília.

Eduardo Prado viveu na França, onde formava turma com gente de letras, como o escritor português Eça de Queiroz. Aquele Jacinto de Tormes, personagem que o leitor encontra no livro A Cidade e as Serras, de Eça, é inspirado no Prado.

Voltando à chácara de dona Veridiana, a Vila Maria: a propriedade era cercada por eucaliptos, escreve Maria Cecília. "Árvore que, conforme se conta, foi introduzida em São Paulo por iniciativa de d. Veridiana." Eram charmosos e tranquilos, a Vila Maria e seus arredores. Hoje, qualquer "Zé Mané" apavora por lá.D

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.