Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Doria: ‘Temos de saber ouvir e ter humildade para melhorar, sobretudo em zeladoria’

Após queda de popularidade, prefeito de São Paulo aposta em ações, como as de tapa-buraco, para melhor avaliação

Entrevista com

João Doria, prefeito de São Paulo

Bia Reis e Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

21 Dezembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Em entrevista exclusiva para fazer um balanço de seu primeiro ano de gestão, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), buscou reforçar seu discurso de “gestor” e prometeu que cumprirá seu mandato até o fim. Ele comentou os problemas da administração municipal, suas parcerias com a iniciativa privada e sua queda nas pesquisas de aprovação - “uma parte disso com justa razão”. Como nos tempos de campanha, voltou a afirmar que a solução passa por “trabalho, trabalho e trabalho”.

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O senhor enfrenta problemas de gestão, como queixas de zeladoria. Em contrapartida, empenhou-se em tecer alianças para que pudesse ser indicado à Presidência ou, agora, ao governo de São Paulo. Neste ano, o Doria político atuou mais do que o Doria gestor?

Não. O Doria gestor atuou como cabe a mim ser gestor. Não sou político. Estou na política. O que fiz foi gestão. Foi essa gestão que impulsionou nosso nome nacionalmente. À medida que, durante um período, houve essa manifestação, ela não foi estimulada. Foi natural. Em relação à cidade, é importante deixar claro que iniciamos a gestão com um déficit de R$ 7,5 bilhões (informação negada pela gestão anterior, que diz ter deixado R$ 3 bilhões em caixa), e isso comprometeu muito todos os programas. Não digo que tenha sido por mal nem deliberado. Agora, em 2018, temos um orçamento elaborado, já aprovado pela Câmara, que vai nos permitir fazer investimentos. Não é que nossa vida vá mudar radicalmente, com recursos suficientes para tudo. Mas pelo menos aquilo que está previsto vai ser cumprido. E continuarei a ser gestor. 

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O senhor dedicou muita energia para facilitar a entrada de empresas privadas no setor público, mas não conseguiu realizar licitações. Não foi possível?

Vamos colocar tudo isso em PPPs (as Parcerias Público-Privadas). Não tem sentido a Prefeitura gastar a fortuna que gasta para fazer varrição, quando ela pode fazer isso em regime de PPP. E que as empresas, na utilização desse lixo, coletado da varrição, transformem isso em recursos para gerar energia e matéria-prima. Isso vai valer para a varrição, mas também para toda a coleta de lixo.

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Mas, na cidade, a coleta é uma concessão, ainda vigente. Como o senhor vai tocar essa PPP e evitar contestação na Justiça?

As empresas ganharão mais em regime de PPP do que atualmente. Ninguém vai deixar de ganhar mais, se puder, é um princípio do setor privado.

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Pessoas pobres, de áreas periféricas foram atendidas em hospitais de ricos.
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João Doria, prefeito de São Paulo

Na campanha, o senhor anunciou que as privatizações poderiam render R$ 7 bilhões; seu secretário de Desestatização fala em R$ 5 bilhões; e o Plano Plurianual de sua gestão, R$ 2,5 bi. Mas não há ainda projetos concretos. O que aconteceu?

Temos várias vitórias na Câmara, com as aprovações (de desestatizações). Nós tivemos de seguir o rito correto, começando com debates públicos. E isso ocorreu com muito sucesso. Agora, em 2018, vamos colocar as modelagens em prática. Aí sim vamos gerar esse resultado. Continuo afirmando que a nossa expectativa é em torno de R$ 7,5 bilhões. 

E os números diferentes? 

É uma expectativa de mercado. Prefiro ser realista otimista do que realista pessimista. É essa a diferença. Vamos ter nesse programa grau de interesse. É o maior programa de privatização de uma metrópole já realizado no País.

Sua aprovação caiu ao longo do ano, segundo o Datafolha. De 44% para 29% entre as pessoas que consideram ótimo/boa. Ao que o senhor credita essa queda? Os paulistanos têm razão?

Primeiramente, queria dizer que nossa aprovação é de 61%, porque soma ótimo, bom e o regular. Isso é um princípio básico. É muito fácil você classificar o regular como desaprovação. Não é. Se pergunto se você gostou de um restaurante, você vai dizer gostei ou gostei mais ou menos. O ‘gostei mais ou menos’ não é desaprovação. A reprovação vai ser ‘não gostei, não volto mais’. 

Mas caiu o porcentual dos que classificam como bom ou ótimo.

Estamos em 61%. O que tivemos foi o crescimento de 13% para 39% dos que desaprovam. Uma parte disso, classifico, com justa razão. Temos de melhorar, saber ouvir e ter discernimento e humildade para melhorar, sobretudo os programas de zeladoria urbana. As maiores críticas foram nesta área. Portanto, estamos respondendo. Fizemos uma mudança de secretário, melhoramos procedimentos, alteramos alguns prefeitos regionais, mantivemos um nível de controle melhor, conseguimos a liberação de asfalto, até com a utilização do fundo de multas. Então, esse é um recado importante. Temos de ter capacidade de ouvir. E lembrar que de 13% a 15% deste universo é ideológico. Pessoa que estão à esquerda e apoiam Lula e companhia, e evidentemente eu me coloco frontalmente em um campo oposto. 

Que nota dá para este primeiro ano de gestão?

Eu não qualifico por notas. Nunca dei, nem no início nem durante nem no encerramento. O que temos de ter é a capacidade de trabalhar mais e melhor. A Prefeitura de São Paulo hoje é trabalho, trabalho e trabalho. Temos é de dar boas respostas, termos um grau de eficiência cada vez melhor e um nível de time, de equipe, muito bom. Os resultados, no seu todo, são bons resultados. Temos de melhorar? Temos.

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A Cracolândia, fisicamente, acabou.
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João Doria, prefeito de São Paulo

O senhor bateu na tecla de que era um gestor, não um político, e não lotearia as secretarias, as Prefeituras Regionais. Mas, na prática, foi isso o que aconteceu. 

Não aconteceu... 

Um exemplo é a saída do PRB da sua base no Legislativo após uma perda de cargos na administração municipal (em novembro). Como o senhor casou a política, a gestão e os partidos?

A Prefeitura é muito grande. São 126 mil funcionários. Nunca disse que proibiria a contratação de funcionários que pudessem estar vinculados a partidos. Mas nunca fizemos o loteamento disso. 

O serviço funerário foi para o PRB...

Não foi. Havia uma indicação. Tanto é que substituímos porque a pessoa anterior, uma senhora que nem me lembro o nome, não estava cumprindo bem a sua função. Foi substituída por outra pessoa, que infelizmente continuou cumprindo mal a função. Então, nós trocamos. Agora, tem outro nível de gestão. Queremos ter boas relações com a Câmara. Aliás, nosso diálogo com o PRB, sobretudo com a direção nacional do PRB, continua sendo muito bom, proveitoso e aberto.

O 'Estado' em novembro reportagem sobre a dificuldade de obter dados por meio da Lei de Acesso à Informação. O que a Prefeitura está fazendo para melhorar?

Tivemos um profissional que teve um comportamento inadequado, querendo limitar o acesso às informações de um veículo de comunicação. Foi dispensado, porque aquela não é a posição da Prefeitura. O acesso tem de ser franqueado e livre. Obviamente que as demandas são muitas e não dá para atender instantaneamente. Mas criar dificuldades, barreiras ou impedimentos, não.

O senhor vai ficar na Prefeitura no ano que vem?

Sou prefeito e vou cumprir meu mandato.

Até 31 de dezembro de 2020?

Sou prefeito e vou cumprir meu mandato até o fim. Meu mandato estabelece que eu devo cumprir até 2020, então vou cumprir meu mandato. Eu fui eleito para isso. 

Desistiu de concorrer a outros cargos?

Nunca anunciei (que concorreria). Você nunca me viu falar, anunciar, pode pesquisar. 

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Tudo aquilo que representa benefício real para a população pode ser revisto, sim, na Lei Cidade Limpa.
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João Doria, prefeito de São Paulo

Mas não negou. Nos 100 dias de governo, disse que dependeria do que o (governador Geraldo) Alckmin, também do PSDB, dissesse, sinalizasse. Continua assim?

Tenho muita fidelidade ao governador e me lembro dessa pergunta e também do que respondi. Continuo sendo uma pessoa leal, vinculada ao governador Alckmin. Jantamos juntos no sábado. É uma pessoa por quem tenho estima, admiração, e fiz questão de reforçar isso na convenção nacional do PSDB, quando fiz um discurso pró-Alckmin, não apenas para ele assumir a presidência do PSDB, como de fato ele assumiu, como ser o candidato do PSDB à Presidência da República. Sigo aquilo que é importante para o PSDB e importante para o governador.

 

Como vê a eventual candidatura José Serra (PSDB) ao Estado?

Não vejo nenhum problema ao Serra, ao Floriano Pesaro, ao Luiz Felipe D’Ávila, ao Cauê Macris, ao José Aníbal (todos do PSDB) ... São cinco bons nomes. O PSDB tem essa vantagem, com muitos bons nomes para as eleições.

E se coloca como um desses nomes? 

Não. Sou prefeito da cidade de São Paulo. Prefeito da cidade de São Paulo. Prefeito da cidade de São Paulo.

Para entender: ‘Estado’ fará balanço por área

O Estado inicia hoje, com a entrevista exclusiva com o prefeito, uma série com o balanço de seu primeiro ano de governo. As reportagens vão trazer uma abordagem temática de áreas importantes da administração municipal.

Doria iniciou 2017 em alta. Com rejeição baixa no começo do ano, investiu na imagem do homem que conseguia doações do setor privado para compensar a falta de verbas municipais. Ao longo do ano, fez 47 viagens para fora de São Paulo, aproveitando também o bom resultado das urnas que o projetou como possível nome até para suceder Michel Temer na Presidência.

Conforme pesquisa Barômetro Político Estadão-Ipsos divulgada nesta t, o desgaste da imagem de Doria pelo País cresceu ao longo do ano. Em fevereiro, 45% desaprovavam a maneira como ele atua pelo País. Neste mês, esse índice subiu para 68%. O levantamento foi feito com 1,2 mil entrevistados, em 72 cidades. 

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