Governo de São Paulo
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Doria se diz chocado com vídeo de agressão de PM em Paraisópolis; governo quer filmar operações

Na segunda ele havia defendido atuação policial; nove pessoas morreram em Paraisópolis no fim de semana

Felipe Resk, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 17h35
Atualizado 06 de dezembro de 2019 | 11h42

SÃO PAULO - Após a morte de nove pessoas em um pancadão de Paraisópolis, a gestão João Doria (PSDB) quer usar drones e câmeras nas fardas dos policiais para filmar todas as operações realizadas em São Paulo. O governador disse, ainda, ter se chocado ao assistir um vídeo de agressão na comunidade, em um caso de outubro, e admitiu pela primeira vez nesta quinta-feira, 5, a possibilidade de revisar protocolos das polícias.

Na segunda, logo após a tragédia, Doria havia declarado que os procedimentos da Polícia Militar seriam mantidos e defendeu a ação dos agentes em Paraisópolis, embora a versão oficial seja contestada por moradores de Paraisópolis. Três dias depois, no entanto, o governador evitou fazer críticas aos pancadões e admitiu a possibilidade de ajustes na conduta policial.

"Se existirem falhas, e elas forem apontadas, aqueles que falharam serão punidos", afirmou, em evento no Palácio dos Bandeirantes. "Independentemente disso, a Polícia Militar e a Polícia Civil já foram orientadas a rever protocolos e identificar procedimentos que possam melhorar e inibir, senão acabar, com qualquer perspectiva da utilização de violência e de uso desproporcional de força."

Na ocasião, o governador anunciou a entrega de mais cem drones para a PM e de um "antidrone", equipamento que inutiliza drones invasores e que deverá ser usado em um presídio da Grande São Paulo. No evento, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, o general João Camilo Pires de Campos, também afirmou que, entre os usos, pretende empregar os equipamentos para gravar ações policiais.

"Todas aquelas operações que estão planejadas ou em curso serão gravadas, porque isso, acima de tudo, protege a ação do policial e esclarece àqueles que estão no comando se há alguma possibilidade de ajuste ou não", afirmou o secretário. Segundo o general, a SSP pretende, ainda, usar câmeras nas viaturas e body cams (câmeras que ficam instaladas na farda do policial) para fazer as filmagens.

Para a gestão Doria, o uso dessas tecnologias poderia ter evitado, por exemplo, o conflito de versões em Paraisópolis. Enquanto a PM afirma que o tumulto no baile funk começou após dois criminosos em uma moto passarem atirando contra os agentes, os moradores dizem que foram os próprios policiais que teriam provocado a tragédia ao tentar realizar uma dispersão truculenta no pancadão.

Segundo o governo, os drones serão distribuídos entre todas as regiões do Estado. Eles devem ser aplicados, ainda, em ações preventivas e em investigações de crimes. O Corpo de Bombeiros e a Polícia Ambiental também receberão os equipamentos. 

Com testes iniciados neste ano, Doria pretende anunciar mil body cams nas próximas duas semanas. Segundo o governador, o modelo é inspirado em polícias internacionais, a exemplo dos Estados Unidos, Israel, Inglaterra e Japão.

Doria afirma que as câmeras serão georreferenciadas e será possível saber onde o policial se encontra. "Tudo que ele está fazendo a câmera que está no uniforme transmite ao vivo para a central de monitoramento", disse. "As primeiras câmeras já chegaram ao Brasil e o treinamento já está em curso."

Doria se diz chocado com agressão exposta por vídeo

Divulgada nesta semana, uma gravação mostra um PM usando um objeto contundente para bater em jovens que saíam de uma viela de Paraisópolis. No vídeo, o policial agride até um rapaz de muletas. Depois, começa a sorrir. O caso teria acontecido em outubro, segundo a SSP. "Eu mesmo fiquei muito chocado quando vi as imagens", disse Doria, para quem as agressões aconteceram "gratuitamente". "Aquele policial não representa a melhor polícia militar do País e tristemente fez o mau papel."

 


Após o caso, o PM foi afastado. "Como governador do Estado de São Paulo, eu não aceito que esse tipo de procedimento exista", afirmou Doria. "Isso é incompatível com o respeito que a corporação merece, por ser a melhor do Brasil, e com o respeito ao cidadão, que não pode ser agredido".

Para o governador, a atitude do policial não pode ser "generalizada" e os casos de irregularidade seriam "pontuais". "Não vamos criminalizar a polícia, não é adequado. Até porque a Polícia Militar, majoritária e expressivamente, opera com eficiência, destreza e respeito aos procedimentos e protocolos. O que não significa que não possa melhorar. Pode, deve e vai melhorar."

Por sua vez, o general Campos disse que o governo já atuaria para combater casos semelhantes. "90% desses vídeos já tinham passado na Corregedoria da Polícia Militar. As providências foram tomadas e inquéritos instaurados. Ou seja, nós vamos atrás."

Na quarta-feira, 4, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, atribuiu as mortes em Paraisópolis a um “erro operacional grave” da PM. Doria, no entanto, disse ter telefonado para Moro e minimizou a declaração.  

"Eu tenho muito respeito pelo ministro Sérgio Moro, pela sua biografia passada e também pela sua postura e conduta atualmente", disse. "Ele não teve tempo de complementar de forma plena a sua resposta, e a utilização contextualizada pode dar o sentimento de generalização, que não desejamos em relação à Polícia Militar de são Paulo."

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