Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Doria prioriza região central de São Paulo no 1º mês

As poucas visitas feitas à periferia da capital foram ‘surpresa’; prioridade do início de governo, afirma secretário, é a zeladoria da cidade

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2017 | 06h00

SÃO PAULO - Ele já se vestiu de gari, pedreiro, pintor e jardineiro, hasteou bandeira, se passou por cadeirante, andou de bicicleta e até arrumou polêmica ao declarar guerra aos pichadores. Nas primeiras semanas de João Doria (PSDB) à frente da Prefeitura, o ritmo tem sido o mesmo de sua campanha: acelerado. Do dia 2 para cá, o tucano lançou ao menos 20 slogans de programas e cumpriu uma de seus principais promessas: a velocidade máxima das Marginais voltou a ser de 90 km/h.

Algumas agendas do tucano parecem uma maratona esportiva, com início às 8 horas e término após as 20 horas. Ao menos por enquanto, Doria confirma ter pressa – “Acelera, São Paulo”, como fez questão de dizer neste sábado, 28, em uma ação de zeladoria no Bom Retiro –, mas ainda não elegeu uma prioridade. O prefeito tem optado por atacar diversas frentes de trabalho ao mesmo tempo, sem definir qual delas receberá mais atenção. 

Até aqui, o Corujão da Saúde, que oferece exames médicos na rede privada, é a ação que recebeu mais investimento público: R$ 17 milhões, para um período de três meses. A meta de zerar a fila de quase 500 mil pessoas vai bem. A estimativa é de que até terça, o número de procedimentos realizados chegue a 100 mil. Boa parte deles feita em hospitais de renome localizados próximos da Avenida Paulista. A região, aliás, vem sendo constantemente visitada por Doria.

A análise dos compromissos mostra que, na periferia, o prefeito visitou endereços em M’Boi Mirim e Campo Limpo, na zona sul; Itaim Paulista e Sapopemba, na zona leste; e Perus, na norte (veja mapa abaixo). A maior parte dessas visitas é “surpresa”. Na última delas, quinta-feira passada, o prefeito constatou demora de seis horas para atendimento em uma unidade de Assistência Médica Ambulatorial (AMA) de Campo Limpo e divulgou o problema nas redes sociais. 

Doria usa sua conta do Facebook como um canal direto de comunicação. Publica fotos, vídeos e, sempre que pode, apresenta seus programas: Mutirão Mário Covas, Calçada Nova, Bate Bola, Casa da Família, Arte de Rua e Cidade Linda, o que teve maior destaque até aqui e foi programado para começar do centro e seguir para a periferia – o que explicaria, diz a Prefeitura, o fato de a agenda deste primeiro mês ter se concentrado no centro expandido. Neste sábado, o prefeito chegou para a reunião de secretariado ainda com o uniforme de jardineiro usado na zeladoria do Bom Retiro.

“Até agora o que vemos é uma sucessão de factoides e slogans. Ele quer dar ideia de um prefeito ativo, mas isso vai se desfazer logo. Os programas são vazios, acho que ele não vai entregar o que está prometendo”, diz o vereador Antonio Donato (PT), presidente da Câmara Municipal nos últimos dois anos.

Secretário de Saúde, Wilson Pollara diz que as pessoas não estão acostumadas com o ritmo, mas que o resultado está acima do esperado. “Tudo está andando rápido. Fazer 100 mil exames em 20 dias não é brincadeira. O prefeito quer tudo para ontem, aperta a gente por prazos curtos e dá certo.”

Parceria. Mostrar a união da equipe também faz parte da estratégia do tucano, assim como reforçar a parceria com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), seu padrinho nas eleições. Desde que assumiu, os dois estiveram em sete agendas juntos. Doria tem sido elogiado pelo governador em público. 

“É um grande prefeito pelo seu exemplo de trabalho, de amor à cidade. Montesquieu (pensador francês) já dizia: se quiser mudar os costumes de uma sociedade, mais que pelas leis é pelo exemplo, porque o exemplo cativa”, disse Alckmin, na última segunda-feira. O governador também se referia às vezes em que Doria se vestiu de gari, por exemplo, para varrer a cidade.

Para o cientista político Marco Antonio Teixeira, da Fundação Getúlio Vargas, Doria precisa parar de comprar brigas desnecessárias – em referência à guerra declarada contra os pichadores –, focar nos problemas da cidade e numa política feita em conjunto. “A impressão que tenho por enquanto é que estamos vendo políticas de Doria, não de governo. Muitas de suas falas não estão em sintonia com as de seus secretários. Além disso, até agora, tem faltado diálogo e prioridade”, diz.

A prioridade, segundo o secretário municipal de Obras e Serviços, Marcos Penido, está muito bem definida. “É a zeladoria. O prefeito quer cuidar da cidade e das pessoas. A partir disso é que ele define suas ações em todas as áreas, de forma transversal. E todo mundo é testemunha: em um mês ele já fez muito. E faria ainda mais se tivesse mais horas em seu dia.” / COLABOROU LUIZ FERNANDO TOLEDO

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