Bruno Ribeiro/Estadão
Bruno Ribeiro/Estadão

Doria ‘passa o chapéu’ em viagem à China

Prefeito usa exposição na imprensa e posição de presidenciável para convencer empresariado

Bruno Ribeiro *, Enviado especial

27 Julho 2017 | 23h34

SHENZHEN (CHINA) - Em uma semana na China, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) não passou 24 horas sem receber doações de empresários para a cidade. Foram câmeras de segurança, drones, equipamentos para aulas digitais e, nesta quinta-feira, 27, painéis solares e carros elétricos.

São doações decididas ali, na hora, em reuniões com empresários interessados em ter São Paulo como potencial cliente. Doria aproveita o cargo de “prefeito da maior cidade do Brasil”, sua posição de presidenciável, exposição na imprensa e a experiência em negociação para arrancar um “sim” para seus pedidos.

Nesta quinta, em Shenzhen, última cidade do seu roteiro, Doria esteve reunido com a maior empresa de baterias do mundo, a BYD, que atua do setor de celulares ao de ônibus elétricos. A previsão era de conhecer a fábrica da empresa. 

Funcionários disseram que já era esperado que ele fizesse algum pedido, e tinham disposição de doar um carro elétrico. Mas Doria chegou com outros planos. Pediu logo quatro. Ele prometeu usar os veículos para ajudar na segurança do maior parque da cidade. “O Ibirapuera vai ser um extraordinário show room para os veículos elétricos da BYD”, disse. A empresa fabrica ônibus elétricos em São Paulo. 

No caso da BYD, a conversa era com o CEO, Wang Chuan-fu, que já foi o homem mais rico da China - até passar a fazer doações de sua fortuna pessoal só para sair do ranking. É uma estrela chinesa, um dos primeiros a surfar na abertura comercial do País, reconhecido por ter enriquecido por seu próprio mérito e suas invenções. 

"Para que ele (Chuan-fu) tenha certeza disso (que a doação trará visibilidade à empresa)", continuou Doria, "podemos começar hoje", disse, ciente do efeito que uma pergunta feita de surpresa gera em qualquer um. "Temos 10 jornalistas, dos principais meios de comunicação do Brasil, que nos acompanham nessa viagem. Um anúncio feito aqui já será objeto de cobertura de televisões, jornais, revistas, rádios e sites automaticamente", afirmou. Na realidade, são sete jornalistas e um repórter-cinematográfico acompanhando o prefeito na China. 

O pedido continua. "Uma das marcas da nossa gestão, além da inovação e tecnologia, é velocidade. Velocidade para tomar decisões e realizá-las, exatamente como no setor privado", disse. "Com isso, encerro nossa intervenção e, antes de exibir o vídeo (institucional, que vem apresentando na cidade), gostaria de ouvir o senhor Wang sobre essas propostas", enfatizando o apelo à decisão.

Na mesma hora, o tradutor que intermediava a negociação afirmou que a BYD só possuía dois veículos elétricos liberados, mas que atenderia o pedido do prefeito. Disse que, no Brasil, importaria outros dois da China ainda neste ano. Chuan-fu disse estar disposto a colaborar com o outro pedido: a doação de painéis solares para hospitais, mas sem cravar um número.

Pouco depois, o prefeito já começava a entregar a exposição prometida: tuitava ter conseguido quatro carros elétricos e dois painéis solares para a cidade. 

Estratégia. Ao longo da semana, foi comum aos jornalistas que fazem a cobertura da viagem ouvirem perguntas de funcionários das empresas visitadas por Doria, enquanto essas negociações ocorriam, sobre suas chances de concorrer à Presidência. Dois diretores dessas empresas deram declarações à imprensa brasileira só para elogiar o prefeito. 

Doria já esteve em cinco instituições financeiras - entre bancos, agências de desenvolvimento e fundos de investimentos. Ele sabe qual é a avaliação dos chineses: em 2018, o País começará novo ciclo de crescimento e eles querem ser conhecidos no Brasil. Tanto que todos sinalizam querer ajudá-lo. Esse conhecimento está incorporado ao “canto da sereia” aos empresários. 

O prefeito não esconde suas estratégias. No caso das câmeras de segurança, que devem ser objeto de Parceria Público-Privada (PPP) anunciada em solo chinês, ele esteve nos dois fabricantes rivais e fez pedido a ambos. Destacou que o método “já havia funcionado” na capital, quando pediu carros e motos para fabricantes brasileiros rivais. 

Depois de “passar o chapéu” na China, Doria deverá se reunir em agosto com empresários chineses para dar sequência aos seus planos, muitos relacionados ao Plano de Desestatização, que prevê, por exemplo, conceder equipamentos públicos. No caso da BYD, o interesse é na licitação dos ônibus, que deve começar no mês que vem.  Doria espera que, antes de receber os orientais, a Câmara Municipal aprove seu plano de desestatização, dando mais segurança jurídica para fechamento de acordos. 

* O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PREFEITURA DE XANGAI

 

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