ALEX SILVA/ESTADAO
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Doria herda pacote bilionário de obras de Haddad e promete tocar o que foi iniciado

Convênios federais somam R$ 8,1 bi, mas somente 10% do montante foi depositado nos cofres municipais. Plano de metas previa R$ 24 bi em melhorias, mas apenas R$ 14,5 bi foram liquidados

Adriana Ferraz e Juliana Diógenes, O Estado de São Paulo

09 de outubro de 2016 | 05h00

No dia 1.º de janeiro, o prefeito eleito João Doria (PSDB) vai herdar da atual administração um pacote bilionário em obras focado em Habitação, Mobilidade Urbana, Saúde e Drenagem. Na lista de projetos em andamento, contratados ou em fase final de licitação, há alguns vendidos como marca pelo prefeito Fernando Haddad (PT), como o futuro Hospital Municipal de Brasilândia, na zona norte, seis CEUs e o corredor de ônibus da Radial Leste.

As informações sobre cada obra ou projeto já finalizado serão passadas à futura gestão tucana durante a fase de transição, que começou oficialmente na sexta-feira com a primeira reunião na Prefeitura entre Doria e Haddad. O prefeito eleito já se comprometeu a não paralisar o que já está na rua, consumindo recursos públicos. As licitações em andamento serão avaliadas, assim como as ações planejadas por Haddad, mas ainda não contratadas.

Parte das obras atrasou ou nem sequer começou pela dificuldade da Prefeitura em conseguir fazer valer os convênios assinados em 2013 com o governo federal. Juntos, somam R$ 8,1 bilhões, mas somente 10% desse montante foi de fato depositado nos cofres municipais – no sábado, o Estado revelou que, na próxima semana, Doria vai se encontrar com o presidente Michel Temer (PMDB) para cobrar essa conta.

O que foi gasto. Sem recursos em caixa, o montante gasto ao longo da gestão Haddad em investimentos ficou aquém das necessidades. Até agora, foram liquidados em ações de melhoria pouco mais de R$ 14,5 bilhões dos R$ 24 bilhões previstos para cumprir o plano de metas anunciado pelo petista. 

Para cumprir o compromisso de continuidade, porém, Doria terá de fazer valer a marca que criou de gestor. Segundo estimativa da Prefeitura, só a execução dos novos corredores de ônibus da zona leste vai consumir mais de R$ 1 bilhão até o fim das obras, que passam por vias importantes, como a Radial Leste e as Avenida Itaquera e Líder, em 45 quilômetros de extensão. 

O modelo de corredor prometido pelo tucano durante a campanha, no entanto, pode exigir algumas alterações nos contratos já firmados. Doria diz que construirá as pistas no formato BRT, sigla em inglês para Transporte Rápido por Ônibus, considerado mais moderno e mais caro. Cada quilômetro custa cerca de R$ 70 milhões. Batizado de “Rapidão” por sua equipe, garantirá viagens 20 minutos mais rápidas, diz Doria, e sua manutenção será entregue à iniciativa privada, dentro do pacote de concessões já anunciado.

Para o cientista político e diretor do Movimento Voto Consciente, Humberto Dantas, dar continuidade a obras em tempos de crise será um desafio. “Arrecadação em baixa é ameaça de muita coisa ficar no papel. A música pode ser nova, mas os desafios são velhos.”

PETISTA CORRE PARA CONCLUIR PROJETOS PRIORITÁRIOS

Se não conseguiu apresentar os resultados durante o período eleitoral, o prefeito Fernando Haddad (PT) quer usar os últimos meses de sua gestão para correr com obras consideradas prioritárias por ele e inaugurar ao menos uma parte delas até dezembro. Nessa lista estão os oito CEUs em construção, ao custo total de R$ 319,8 milhões. 

Em 2013, o petista se comprometeu a entregar 20 e até agora só cumpriu a promessa com o CEU Heliópolis, na zona sul. Na campanha, foi cobrado por Marta Suplicy (PMDB) pelo atraso. 

Na área da Saúde, a prioridade é acelerar a construção do Hospital Municipal de Parelheiros, no extremo sul, para que o petista possa inaugurar ao menos uma das alas do futuro equipamento – o projeto teve início em fevereiro de 2015. A unidade de Brasilândia ficou para 2017. 

Haddad deve repetir a gestão Marta Suplicy, que também iniciou a construção de dois hospitais, mas acabou repassando a inauguração para um tucano: José Serra. Os dois já custaram R$ 364 milhões. 

Há expectativa ainda no setor da mobilidade urbana. Até dezembro, a atual gestão espera conseguir entregar ao menos um trecho do corredor de ônibus Leste-Itaquera, que tem 72% dos serviços executados.

ANÁLISE:  Carlos Melo* 

Prefeito deve avaliar se obras convêm à sua lógica de cidade

O prefeito Fernando Haddad entregará obras em andamento para o próximo prefeito. João Doria terá de avaliar as obras, dentro da nova lógica que quer adotar. Se Haddad tem o que mostrar no final da sua gestão, no que se refere à conclusão de algumas obras, a pergunta que se faz é: por que não mostrou antes? Do ponto de vista eleitoral, houve uma impressão geral de que ele teve pouco o que mostrar em relação à realização de obras. Agora, o que se vê é que ele, provavelmente, vai deixar muitos projetos e muitas obras engatilhadas para que seu sucessor, que era seu adversário, inaugure. Antes de tudo, porém, é preciso saber se haverá recursos para concluir o que está em andamento. 

É irônico que um prefeito, acusado de ter pouco a mostrar, agora deixe um rol de realizações a serem concluídas por seu sucessor. Sob a perspectiva eleitoral, talvez essa postura de Haddad tenha sido um erro. Do ponto de vista de gestão, no entanto, talvez seja algo inédito a ser ressaltado. Na política brasileira, infelizmente, o normal seria acelerar as obras no fim de uma gestão, correndo o risco de ficar malfeito. A atitude de Haddad, de não acelerar obras e realizações em função do calendário eleitoral é, talvez, uma atitude que o distinga.

*É CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO INSPER



 

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