Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Doria vai lançar PPP para modernizar semáforos de SP

Objetivo de parceria com a iniciativa privada é implantar nova tecnologia para que até 85% dos 6.500 semáforos da cidade possam ser operados remotamente

Fabio Leite e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2017 | 16h05
Atualizado 26 Julho 2017 | 23h36

SÃO PAULO - Em meio a uma série de falhas em semáforos, a gestão do prefeito João Doria (PSDB) se prepara para lançar uma Parceria Público-Privada (PPP) para modernizar a rede de equipamentos da cidade. O objetivo é implementar nova tecnologia para que até 85% dos 6,4 mil aparelhos, alvos constante de apagões e vandalismo, sejam operados a distância. Atualmente, esse sistema remoto funciona em cerca de 600 semáforos – menos de 10% dos faróis.

Ao longo do primeiro semestre, motoristas e pedestres enfrentaram diversos problemas nos semáforos porque o contrato de manutenção da rede venceu no fim de 2016, ainda na gestão anterior, e não foi renovado. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) chegou a colocar cones e a deixar agentes de trânsito em determinados pontos para amenizar a situação. O novo contrato foi feito apenas neste mês e custou R$ 40,8 milhões.

“O edital que fizemos agora é para colocar o parque semafórico funcionando. O que faremos por meio do modelo PPP vai dar inteligência e um novo padrão de rede semafórica para a cidade”, afirmou nesta quarta o presidente da CET, João Otaviano, que trabalha com a previsão de lançar a PPP em 2018. “Estamos agora discutindo o modelo econômico da PPP, as contrapartidas e as receitas acessórias”, disse Otaviano. O projeto está sendo elaborado pela CET, em conjunto com a Secretaria Municipal de Desestatização e Parcerias. 

Segundo Otaviano, o modelo permitirá a “gestão inteligente do trânsito”. Será possível, por exemplo, alterar o tempo de espera em um cruzamento conforme o fluxo de tráfego com base em um simples comando na central de controle. Daria para religar os aparelhos remotamente em caso de corte de energia. A expectativa é de que, com as mudanças, o trânsito flua melhor.

Hoje, cerca de 50 semáforos quebram por dia na cidade. Segundo a CET, no primeiro semestre, quando a rede ficou sem contrato de manutenção e o serviço foi feito só por técnicos da companhia, 175 faróis foram alvos de vandalismo e houve o furto de 25 km de cabos da rede. “Só em um cruzamento da Avenida Rio Branco (centro), reparamos o mesmo semáforo oito vezes no período.” Nos últimos dias, a Prefeitura iniciou mutirão para consertos de forma emergencial e 25 voltaram a funcionar. 

Queixas. Enquanto a solução definitiva não chega, motoristas e pedestres se queixam da precariedade dos equipamentos em vários bairros. 

Frequentadores do Museu Catavento, no centro, contam com a boa vontade dos motoristas para conseguir atravessar o intenso tráfego da Avenida do Estado. O semáforo ali instalado, exclusivo para pedestres, está apagado há três meses, segundo motoristas. Não raro, dependem da intervenção de vendedores de rua para fazer com que os veículos deem passagem.

O vendedor Paulo Barbosa, de 36 anos, conta que avançou na pista com seu carrinho de pipoca e doces para que crianças passassem em segurança. “É muito perigoso e ninguém vem resolver. Toda hora tem pedestre quase sendo atropelado.”

Na Rua General Osório com a Barão de Limeira, também no centro, ninguém se recorda com exatidão há quanto tempo os equipamentos não funcionam. O mecânico Márcio Morioka, de 34 anos, diz que a situação leva a discussões diárias entre motoristas. “Toda hora tem um ‘quase acidente’ aqui.”

Em frente à loja onde Morioka trabalha, ficava a caixa com fios e equipamentos responsável pelo funcionamento do semáforo. Nesta quarta, só havia a base de cimento. “Os ‘nóias’ (dependentes químicos) roubam os fios com frequência.” 

Em nota, a CET informou que os locais citados integram a “programação do mutirão de manutenção” e estarão consertados nos “próximos dias”. A força-tarefa é feita em vias onde há maior recorrência de furtos e vandalismo, segundo o órgão.


O Metrópole também está no Instagram. Siga a nossa página: @estadaometropole

Encontrou algum erro? Entre em contato

Gestão inteligente de semáforos pode reduzir congestionamento, dizem especialistas

Para eles, novos equipamentos e monitoramento remoto são necessários em rede tão grande quanto a da capital paulista

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2017 | 23h27

SÃO PAULO - A modernização da rede semafórica pode reduzir a quantidade de congestionamentos na cidade, de acordo com especialistas em engenharia de tráfego. Novos equipamentos e estrutura de gestão inteligente e remota, afirmam eles, são indispensáveis em uma rede tão grande quanto a da capital paulista. 

Segundo o consultor e ex-ombudsman da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) Luiz Célio Bottura, sistemas de diversas cidades do mundo têm operação inteligente. “Ouço falar de modernização há mais de uma década. Uma rede atualizada, em que seja possível medir a fluidez do trânsito e ajustar o tempo de semáforos em função disso, tem influência sobre congestionamentos e acidentes.” São necessários, diz ele, ajustes estruturais. “O modo como funciona na zona sul não é o mesmo da zona norte, e assim vai. Precisa ser estudada também eventual unificação da rede.”

O engenheiro e mestre em Transportes pela Universidade de São Paulo (USP) Sérgio Ejzenberg cobra uma rede “mais confiável”. “Estamos muito atrasados ao ter semáforos com tempo fixo. Precisamos de detectores que respondam à demanda e que notem anormalidades, tendo como consequência rápidas ações corretivas das equipes responsáveis”, diz. 

A necessidade de modernização é reforçada, afirma Ejzenberg, pela saturação do trânsito paulistano. “É preciso que possamos operar com agilidade e, para isso, é necessário uma ferramenta moderna.”

Ele acredita que um dos maiores problemas esteja no fato de a maior parte da fiação dos semáforos da capital ser aérea e, por isso, exposta a intempéries e acidentes. “Vamos comparar à fiação de uma residência: os fios não estão pendurados no teto porque, evidentemente, isso ocasionaria vários problemas. Então, com a fiação aérea, num país tropical e numa cidade com constantes descargas elétricas, é esperar que a pane aconteça. Primeira coisa a ser feita seria enterrar a fiação.” 

Ajustes. Após o verão de 2013, quando tempestades causaram apagões em série nos cruzamentos, a CET desenvolveu programa de manutenção da rede voltado a instalar sistemas no-break, capazes de manter equipamentos ligados mesmo sem energia. O projeto implementou 1,4 mil nobreaks e mil controladores, além de 1,8 mil dispositivos que enviam à CET informações de quando os sinais quebram. Antes da mudança, 500 semáforos ficavam desligados em dias de chuva. Depois, o número caiu para 60.

Mais conteúdo sobre:
São Paulo [SP]CET

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.