Governo do Estado de São Paulo
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Doria cita cenário 'desolador' e prorroga quarentena em São Paulo até o dia 31 de maio

Medida foi anunciada em coletiva no Palácio dos Bandeirantes nesta sexta-feira, 8. 'Autorizar o relaxamento agora seria colocar em risco vidas e o sistema de saúde', disse o governador

Paloma Cotes, Tulio Kruse e Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2020 | 13h00

A quarentena no Estado de São Paulo teve o prazo prorrogado até o dia 31 de maio. O anúncio foi feito pelo governador João Doria (PSDB) nesta sexta-feira, 8, em entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes.  

"O cenário é desolador. E a quarentena está salvando vidas em São Paulo. Nenhum governante tem prazer em dar más notícias, mas não se trata de ter ou não este sentimento, trata-se de proteger vidas no momento mais crítico desse País", disse Doria. "Nenhum país conseguiu relaxar as medidas de isolamento social em meio a uma curva crescente. Autorizar o relaxamento agora seria colocar em risco vidas e o sistema de saúde. Retomaremos sim, no momento certo, na hora certa", afirmou.  

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), também participou do anúncio. "Situações extremas exigem medidas extremas. Só na cidade de São Paulo, são 4.496 mortes entre confirmadas e suspeitas. A lotação das UTIs municipais é de mais de 80% e mais da metade dos nossos hospitais já tem 100% de ocupação", afirmou Bruno Covas.

A quarentena foi implementada em todo o Estado de São Paulo no dia 24 de março. A medida permite somente o funcionamento dos serviços considerados essenciais e continua valendo para os 645 municípios paulistas.

Doria já havia prorrogado a quarentena por duas vezes, o que gerou pressão de alguns setores da economia e de prefeitos, que pediam regras mais flexíveis. Diante deste cenário, Doria anunciou no dia 22 de abril que faria uma flexibilização das regras, o chamado Plano São Paulo. Na época do anúncio, o governo afirmou que a flexibilização levaria em conta três fatores: taxa de crescimento do número de pessoas infectadas, capacidade do sistema de saúde de oferecer leitos de internação e número de pessoas testadas para a doença. 

Mas, nesta sexta, Doria afirmou que ainda não será possível colocar o Plano São Paulo em prática. "A pandemia é a maior provação da nossa história. A decisão de prorrogar a quarentena é a decisão pela vida. Estamos vendo o colapso do sistema de saúde. Quando isso acontece, paralisa tudo. O colapso da saúde aumenta o medo, a insegurança e as mortes", disse. 

Questionado sobre a possibilidade de medidas ainda mais restritivas, Doria afirmou que o lockdown "não está descartado". "Acreditamos que as medidas da quarentena e a consciência das pessoas podem ser suficientes. Se isso não ocorrer, outras medidas podem ser adotadas. Aqui, não fugimos às responsabilidades", disse. 

O secretário estadual da Fazenda e do Planejamento, Henrique Meirelles, reforçou a importância da extensão da quarentena e falou sobre uma retomada da atividade econômica, mas só após o controle da doença. "Temos que ter uma extensão rigorosa e disciplinada. Quanto mais rápido controlarmos a epidemia, mais rápido saíremos da crise", disse. "Existe um equívoco que está permeando diversos setores de poder no Brasil de que o isolamento social é que está causando a crise econômica. Não é. A crise é causada pela pandemia", afirmou Meirelles.

O governo estabeleceu dois critérios principais para iniciar a flexibilização. Para a reabertura, será necessária uma redução no número de casos por 14 dias, e que a taxa de ocupação de leitos de UTI fique no patamar de 60%. O centro de contingência estadual não tem previsão de data para que essas condições possam ser atingidas. 

Sistema de saúde e isolamento social

O sistema de saúde público na Grande São Paulo já opera praticamente no limite. De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde, na Grande São Paulo, a ocupação dos leitos de UTI já é de 89,6%. No Estado, é de 70%. Em leitos de enfermaria, a taxa de ocupação é de 74% região metropolitana e de 51,7% no Estado.

"Houve um agravamento nos últimos 15 dias e isso coincidiu com uma queda na taxa de isolamento", afirmou o secretário Estadual da Saúde, José Henrique Germann, ao anunciar os números da doença. De acordo com o balanço, São Paulo tem 41.830 casos confirmados e 3.416 mortes pelo novo coronavírus. "Se não conseguirmos 55% de taxa de isolamento, teremos problemas no atendimento aos pacientes", disse.

O Estado de São Paulo vem enfrentando baixas taxas de isolamento social, abaixo dos 50%. A meta do governo é 60% e o número ideal é 70%, a fim de evitar um colapso do sistema de saúde. Mas poucos municípios atingem a meta.

"Nós não temos bola de cristal, nós olhamos os dados dia a dia e, com base nesses dados é que tomamos as decisões", disse o novo coordenador do centro de contingência, Dimas Tadeu Covas. Ele ressaltou que será necessário atingir uma média de ao menos 55% de isolamento social para que as condições para reabertura sejam possíveis. "Quanto menos nós obedecermos o afastamento social, maior será a taxa de contágio e, portanto, mais grave a epidemia e mais tempo vai durar (o fechamento)."

Na capital paulista os índices giram em torno de 48% (o número só sobe em finais de semana) e, diante deste cenário, Covas determinou nesta quinta um novo rodízio, mais restritivo, que pretende tirar 50% dos carros das ruas.

"O objetivo (novo rodízio) é fazer com que as pessoas fiquem em casa. Não há motivo para ficar circulando e levando o vírus de um lugar ao outro. As medidas são sempre relacionadas com a adesão da população. Se as pessoas cumprem, podemos falar em flexibilizar. Se não cumprem, precisamos apertar", disse Covas, que relatou ter recebido ameaças após a determinação do novo rodízio. "Não vamos retroceder um milímetro, não vamos nos deixar intimidar", afirmou.  

Avanço da doença pelo interior

O governo paulista também enfrenta problemas na aquisição de insumos e de equipamentos no combate à doença. A China bloqueou a vinda de 500 dos 3 mil respiradores adquiridos pelo governo de São Paulo e que seriam destinados a UTIs.

Além disso, um estudo divulgado pelo próprio governo nesta quinta-feira mostra um avanço da doença no interior do Estado. A cada três dias, 38 novas cidades paulistas registram casos de coronavírus. Se esse ritmo se mantiver, até o fim de maio, todos os municípios paulistas (são 645) serão afetados pela doença.

De acordo com Dimas Tadeu Covas, caso a quarentena não fosse adotada, São Paulo teria 700 mil pessoas infectadas até hoje. Com as medidas de isolamento, são pouco mais de 40 mil doentes. "Ninguém será poupado desse vírus. É assustadora a progressão da doença. A adesão ao isolamento já foi melhor, mas piorou muito. Nesse ritmo, o sistema de saúde ficará muito prejudicado", afirmou.

Nesta sexta, David Uip chefe do Centro de Contingência contra a Covid-19, pediu licença do cargo. Na ultima quarta, ele teria se sentido mal e, por recomendação médica, ficará afastado por alguns dias. "Fico entristecido de, neste momento difícil de crise, de uma pandemia muito séria, que tem causado tantos óbitos em nosso Estado e gerado grande sofrimento entre os brasileiros de São Paulo que perderam familiares e amigos queridos, não poder estar fisicamente presente. No entanto, tenho a plena convicção de que São Paulo está no caminho certo. E está salvando vidas. A colaboração dos meus 15 colegas do Centro de Contingência, formado por médicos, cientistas, virologistas, professores e pesquisadores, tem sido fantástica", disse em nota, lida por Doria. 

Veja o anúncio do governador João Doria

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