Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Doria coloca a cúpula da Polícia Militar de SP em treinamento por causa de abuso nas ruas

Segundo o governador, o programa vai se chamar Retreinar e, inicialmente, mira as altas patentes da corporação e não os policiais que estão na ponta e fazem atendimento nos bairros

Felipe Resk e Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 13h38

Em meio ao recorde de letalidade e denúncias de violência policial, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou nesta segunda-feira, dia 22, que a cúpula da Polícia Militar terá de passar por novo treinamento a partir de julho. Segundo o governador, o programa vai se chamar Retreinar e, inicialmente, mira as altas patentes da corporação - só chegando depois aos PMs que estão na ponta e fazem atendimento nas ruas.

A orientação foi dada diretamente ao secretário da Segurança Pública, o general João Camilo Pires de Campos, que se recupera em casa após contrair covid-19, segundo o próprio Doria. "Serão coronéis, tenenente-coronéis, majores, capitães, tenentes, sargentos, iniciando no comando do Quartel General, que fica no bairro da Luz, no centro", disse.

"O retreinamento de todo o comando das nossas tropas é para evitar em 1% de maus policiais, que insistem em utilizar violência desnecessária, possa compreender que isso não é aceitável", afirmou Doria. Segundo o governador, a gestão seria "absolutamente contra qualquer excesso ou violência policial desnecessária."

O secretário executivo da PM, coronel Álvaro Camilo, agirmou que a ideia é começar pelo alto escalão e depois "descer até a ponta da linha". "Vamos treinar os próprios soldados e cabos que estão na viatura para que os excessos não aconteçam." Ainda conforme Camilo, os valores que "regem a Polícia Militar" seriam "respeito aos direitos humanos, gestão e polícia comunitária". "Eles serão relembrados do que aprenderam na escola de que se deve tratar as pessoas como gostariam de ser tratados."

Doria refuta possibilidade de alta da violência estar ligada à insubordinação da tropa

O governador, no entanto, negou a hipótese de que o aumento de relatos de violência poderia estar relacionado à "insubordinação da tropa". "Temos 0,4% de mau comportamento daqueles que fazem parte da Polícia Militar de São Paulo", disse. "Isso confere que não há qualquer tipo de insubordinação ou práticas crescentes. Infelizmente parte de uma média de comportamento condenável que nós precisamos dimunir." Desde o início de 2019, ao menos 220 policiais envolvidos em falhas graves ou crimes já foram demitidos ou expulsos das forças de segurança paulistas, conforme o governo. 


Para Camilo, os casos refletiriam "desvio de conduta". "São casos isolados, é só pegar as estatísticas", afirmou. "O que eu queria deixar bem claro é que a grande maioria dos policiais é contra. Recebi várias mensagens de policiais indignados com essas atitudes. A maioria trabalha bem. A grande polícia faz um excelente trabalho: protege, salva e garante direitos."

Recentemente, o Estadão mostrou que o número de pessoas mortas em supostos confrontos com a PM atingiu patamar recorde em abril, mesmo com a quarentena decretada para conter o avanço do novo coronavírus. Foram 116 casos registrados no mês, o que representa um aumento de 56%.

Em contrapartida, todos os indicadores de produtividade caíram no período. Na prática, isso significa que as polícias de São Paulo prenderam menos pessoas, tiraram menos armas ilegais das ruas e até registraram queda no número de ações contra o tráfico.

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