Dono da Kiss mudou teto sem autorização

Proprietário instalou espuma inflamável, construiu um anexo ilegal e superlotou a casa no dia da tragédia, diz delegado da Polícia Civil

DIEGO ZANCHETTA, ENVIADO ESPECIAL, SANTA MARIA, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2013 | 02h05

Novos depoimentos e documentos obtidos pela Polícia Civil de Santa Maria (RS) apontam que Elissandro Spohr, o Kiko, um dos donos da Kiss, adotou medidas à revelia do poder público e modificou o projeto original da casa, aprovado pela prefeitura em outubro de 2010 e pelos bombeiros em agosto de 2011. Espuma inflamável como isolante acústico, de uso vetado por lei, foi posta no teto por um funcionário em julho, após abaixo-assinado de 87 vizinhos contra o barulho. Morreram 235 pessoas na tragédia.

Em setembro, Spohr construiu um anexo com mais de 230 m², que não consta da planta de 639,7 m² aprovada em 4 de março de 2010 pela Secretaria de Controle Urbano e Mobilidade. A obra ampliou em 36% o tamanho da casa, que continuou sem saída de emergência.

"A espuma foi colocada por um funcionário da boate na metade do ano (passado). Antes, no início de 2012, eles tinham feito um isolamento acústico a pedido do Ministério Público Estadual. Ele não poderia ter usado a espuma inflamável de forma alguma", afirmou o delegado regional Marcelo Arigony, chefe das investigações. A fumaça tóxica da espuma foi a principal causa das mortes, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

A espuma pegou fogo após sinalizadores com faíscas serem acesos durante o show da banda Gurizada Fandangueira. A polícia descobriu, pelos depoimentos, que a banda já havia usado sinalizadores em outras apresentações na Kiss. "A colocação da espuma inflável no sistema de isolamento pode ter rebaixado o teto, que ficava bem abaixo dos músicos", disse Arigony.

O advogado de Spohr, Jader Marques, disse que o uso da espuma inflamável foi indicado por uma empresa. "Preciso ter a certeza de tudo para dizer nomes, mas não foi o Kiko que teve a ideia de comprar a espuma, ele teve assessoria técnica." Marques, porém, admitiu que a colocação da espuma não foi comunicada ao MPE, com quem fora assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), em julho.

Dolo. A superlotação, o uso da espuma e a área anexa ilegal podem caracterizar dolo eventual. "É a mesma coisa que uma pessoa atravessar o sinal vermelho. Ela não sabe que vai acontecer algo com ela, mas sabe o risco que corre", disse o delegado.

No projeto do MPE, só havia duas camadas de isolamento, uma de gesso e outra de cera com vidro. A espuma foi colocada como uma terceira camada. "Foi a insuficiência do sistema apontado pelo TAC que motivou a colocação das espumas. Os vizinhos continuaram reclamando do barulho", disse Marques.

Investigadores descobriram que o segundo sócio, Mario Hoffmann, que está preso, não tem só participação societária, como ele argumentava. "Ele ia sempre à boate e participava do gerenciamento", disse o delegado. A mãe e a irmã de Spohr, que são as donas da boate no registro oficial, podem ser responsabilizadas.

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