Domingo

Quando o telefone tocou, minha mulher previu: "Quer ver que é o Fabrício?" - e era. Não é todo domingo que meu amigo liga, mas quase, e sempre à mesma hora: de noitinha, quando o fim de semana vai dizendo adeus e os dias úteis vão tomando, sorrateiramente, cada um de nossos pensamentos.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2010 | 00h00

Embora não tenha deixado transparecer, percebi que meu amor ficou incomodado com o telefonema. Não é que não goste do Fabrício, ela adora, mas planejávamos pedir um árabe, ligar o aquecedor, assistir a um filme - e o Fabrício, em suas chamadas dominicais, invariavelmente me propõe: "Passa aqui, mano, vamos tomar umas cervejas!".

Quando eu era mais jovem, achava muito estranho as pessoas contarem o domingo como o primeiro dia da semana. Levou 30 anos para eu entender que estavam certas: o domingo à noite é a base de lançamento da semana. É a largada que, bem dada (tabule, aquecedor, vídeo, a leitura daqueles artigos infinitos nos cadernos culturais), te deixa com disposição para enfrentar a longa corrida com barreiras que começará na manhã seguinte.

Meu amigo sabe disso e é justamente por entender a importância da noite de domingo no equilíbrio geral de todas as coisas que fica angustiado, assim que o sol se põe, e me liga. Talvez algumas cervejas nos façam ignorar aquele canyon existencial: a segunda late em nossos rostos, a brisa do sábado ainda bate em nossas costas; à frente, livros a serem escritos, a dúvida se diremos algo relevante ou só repetiremos velhas bobagens, as preocupações com dinheiro e um evento ao qual não se deve faltar; atrás, a adolescência ainda fresca, aquelas promessas de nunca virar um bocó, trocar os sonhos pelo crediário; talvez até, mais longe ainda, a lembrança inata de outras épocas, em que andávamos à cavalo, usávamos espadas em vez do Word 7 for Windows e tanto fazia se era terça de madrugada ou sábado dez pras nove.

Às vezes eu vou lá na casa do Fabrício. A gente toma umas cervejas e fica empolgado. Fala bem de nossos amores e mal de nossos trabalhos. Ele me lê um poema que acabou de escrever, eu falo de um capítulo que estou começando. A gente relembra histórias de nossos ídolos literários. Eles nos parecem tão destemidos, dizendo "Sim, ao eterno" e nós, tão franzinos. Então, já de madrugada, a gente fica melancólico. Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que não devíamos ir na direção contrária, deixar de lado a vida freelancer e abraçar uma existência globetrotter, escrever um diário, sei lá, na Macedônia? Depois disso, há um silêncio. Um de nós diz, "Mano, preciso dormir, amanhã vai ser f...", e a gente se despede, que no dia seguinte é segunda e, como se não bastasse, estaremos ambos de ressaca, respondendo e-mails e enviando notas fiscais.

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