Documentos citam propina no Metrô e na CPTM

Pagamentos seriam feitos por meio de três empresas com sede no Uruguai; elas seriam usadas pela Siemens AG e pela Alstom

Bruno Ribeiro e Marcelo Godoy,

03 de agosto de 2013 | 02h00

O Ministério Público Estadual de São Paulo tem em mãos papéis que indicam o suposto pagamento de propina a diretores da Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô) e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Eles seriam feitos por empresas offshore no Uruguai: Leraway, Gantown e MCA. As três seriam usadas pela Siemens AG e pela Alstom, a fim de obter contratos com o governo de São Paulo.

Um dos diretores da Alstom da área de transportes e seus colegas da Siemens teriam participado das tratativas. As empresas informaram que estão colaborando com as autoridades – a Siemens informou ainda que aperfeiçoou as práticas administrativas desde 2007.

As comissões pagas aos agentes públicos chegariam a 8% dos valores do contrato da linha 5-Lilás do Metrô. Há relatos ainda de supostos pagamentos nos contratos de reforma de trens da CPTM que teriam contado com a participação de uma outra suposta participante do cartel do setor denunciado pela Siemens ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) do Ministério da Justiça.

Os executivos da Siemens chamavam os encontros com as outras empresas de "reuniões secretas". Em 10 de janeiro de 2005, um documento registrou que, "após várias discussões, um acordo para a subdivisão dos lotes foi alcançado". Os executivos da Siemens analisaram a possibilidade de uma "corrida por fora" (uma empresa concorrer sozinha) na licitação do projeto Boa Viagem, da CPTM.

Escreveram então que o cartel lançaria mão de "mecanismos de proteção contra fornecedores não convidados". Os investigadores querem saber agora que tipo de "mecanismo" seria esse que garantiria imunidade ao cartel contra empresas que tentassem furar o bloqueio.

Em um outro documento entregue pela Siemens ao Cade – chamado Projektjournal –, haveria indícios da proximidade ou mesmo da conivência de agentes públicos de São Paulo com o cartel na licitação da Linha 5-Lilás do Metrô. Em 29 de fevereiro de 2000, um dos executivos da multinacional chama o suposto cartel de "grande solução". Diz ainda que o "cliente/secretaria prefere a opção 1 (um acordo das gigantes Alstom, da Siemens, Mitsui e TTrans com a CAF)". Em outro documento, um executivo escreveu: "Deve-se lembrar que o preço foi resultado de diversas reuniões em rodadas de coordenação e negociações". E reconhece que "o preço dificilmente seria o mesmo em competição aberta".

 

Slide. Os promotores têm ainda uma apresentação feita pelo então gerente da unidade de material rodante da Siemens, que diz que "o consórcio combinado é muito melhor para todos os participantes". Abaixo do slide há uma anotação: "O projeto da Linha 5 é o último de ganho certo. O fornecimento dos carros é organizado em um consórcio ‘político’, então o preço foi muito alto".

O Estado teve acesso a um outro documento que mostra que, em pelos menos um dos casos, um executivo da Siemens citou uma suposta ação da CPTM para ajudar a multinacional alemã a ganhar um dos contratos de manutenção de trens.

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