'Doctor Milagro' faz transplantes até com cadáveres

Dono de uma clínica e de uma fundação, valenciano de 48 anos faz cerca de 1.800 cirurgias reparadoras anuais

Entrevista com

MÔNICA MANIR, O Estado de S.Paulo

12 Maio 2013 | 02h01

Em vez do alinhado terno de três botões, uma camisa cáqui fora da bermuda, barba e um cocar vermelho enfiado na cabeça. Assim o cirurgião Pedro Cavadas se apresentou à plateia em sua primeira palestra no Simpósio Internacional de Cirurgia da Mão e Microcirurgia Reconstrutiva, promovido pelo Hospital Sírio-Libanês na sexta-feira. Ele falava de reimplantes de membros posteriores, técnica controversa por si só pelos maus resultados que costuma dar. Mas Cavadas gosta de romper com dogmas e, a cada projeção de membros amputados e bem recolocados no lugar, ia literalmente quebrando as pernas dos mais céticos.

O "doctor milagro", como é conhecido, tem no currículo uma série de diabruras médicas. Fez o primeiro transplante de mandíbula e língua do mundo, o primeiro transplante duplo de pernas, já manteve um braço amputado conectado à virilha do paciente por nove dias, enquanto esperava uma infecção ser debelada, e já implantou a mão direita no braço esquerdo de um homem de 63 anos, o que exige mais linhas para explicar: o paciente havia perdido a mão esquerda num acidente e, 40 anos depois, um AVC o paralisou do lado direito. Cavadas trocou a mão direita de lado, cuidando para transferir o polegar para a outra ponta.

Dono de uma clínica e de uma fundação com seu nome, esse valenciano de 48 anos faz cerca de 1.800 cirurgias reparadoras anuais, pilotando uma equipe sucinta formada basicamente por um italiano e três espanhóis. Também investe tempo, dinheiro e vocação social na África Subsaariana, mais especificamente em vilarejos no Quênia e na Tanzânia, onde atende quem passa pela porta. Confessa que a empreitada começou como uma aventura, quando pensava como um adolescente, embora já fosse homem feito. Mas a vaidade logo minguou. "Fazer medicina é melhorar a qualidade de vida das pessoas; não tem, portanto, nada a ver com médicos, mas com pacientes", diz, já sem o cocar da Amazônia, que visitara dois dias antes - e de onde saiu como lenda depois de abraçar um jacaré num afluente do Rio Negro.

O senhor fez cinco transplantes até agora usando membros de cadáveres. Quando vale a pena optar por esse procedimento?Esses transplantes de extremidades têm, de certa maneira, o mesmo problema dos transplantes que envolvem órgãos: a necessidade de uma medicação que precisa ser tomada por toda a vida e às vezes provoca consequências fatais. Um transplante de mãos, por exemplo, deve ser feito em último caso, quando não há outra possibilidade e quando o paciente vai melhorar muitíssimo sua qualidade de vida, mesmo sob o risco da medicação.

Quais são os problemas mais frequentes dessa medicação? Os imunossupressores trazem basicamente três: um é a toxicidade direta do remédio; outro são as infecções decorrentes da redução de defesas do organismo; o terceiro é o possível aparecimento de certos tipos de câncer, também devido à baixa imunidade. Há muitas pesquisas buscando fazer com que o receptor não rejeite o órgão transplantado, mas ainda estamos longe de conseguir essa tolerância.

O senhor recebe muitos candidatos a esse tipo de transplante? Muita gente manda e-mails perguntando a respeito. Mas para os transplantes de mãos, que são os mais frequentes, somente consideramos essa intervenção em quem perdeu as duas. Para aquele que tem uma mão saudável, o risco que vai correr com a imunossupressão transplantando a outra mão é excessivo. Não compensa, não vai beneficiar o paciente. Além disso, só escolho pacientes que morem na Espanha. A relação com um transplantado é como um casamento para toda a vida. Preciso acompanhá-lo de perto, ter certeza da continuidade do tratamento, de que está recebendo as drogas certas.

Todos os seus transplantados estão vivos? Nem todos. Um deles morreu e não revelo à mídia quem foi porque zelo pela identidade dos meus pacientes. Sim, dois deles se expuseram. Já estão crescidos e sabem o que fazem, mas não fico confortável com isso.

As amputações costumam vir mais de acidentes ou de enfermidades? A causa mais frequente são os acidentes, especialmente explosão ou lesão por descarga elétrica. Ainda não se fizeram no mundo transplantes para tratar malformações congênitas, de crianças que nasceram sem as mãos, por exemplo. Um transplante - qualquer transplante - em uma criança só pode ser levado adiante quando ela corre risco de morrer. Se nasceu sem uma mão, tem uma boa perspectiva de vida. Além disso, as malformações não são como amputações. Nas amputações, alguma parte normal se vai. Nas deficiências congênitas, há desvios inteiros que não estão formados.

Uma pessoa que assume o rosto de outra pode ter crise de personalidade? Não, certamente não. Essa pessoa que perdeu o aspecto humano passa a ter um rosto. Logo começa a chamá-lo de seu, assim como começa a falar em "suas mãos", "suas pernas". Quando se fez o primeiro transplante de coração, dizia-se que os transplantados poderiam ter problemas psicológicos. Um coração é uma bomba de sangue, não há sentimentos envolvidos. No transplante de face, também se falava disso e agora, nem tanto.

Como sua fundação sobrevive? Eu a mantenho com meu trabalho.

Não recebe verbas públicas? Não. Não quero depender do dinheiro do governo ou de quem quer que seja. Se decidirem de uma hora para outra interromper o financiamento, o que se faz com um projeto em andamento? O que vou dizer, por exemplo, aos meus pacientes na África? Minha fundação tem 10 anos, é pequena, tem o tamanho que pode ter. É sustentável.

O senhor trata seus pacientes africanos lá mesmo ou os leva à Espanha? De tão simples, os hospitais locais nem podem ser chamados de hospitais. Mas tenho meu próprio equipamento ali. Em alguns casos, quando sinto que não posso fazer o absolutamente necessário com o que tenho, arranjo passaporte e levo a pessoa à Espanha, onde ela passa um tempo até se recuperar e voltar. É o que ocorre com meninos castrados nos conflitos entre as tribos, uma estratégia de guerra infelizmente comum.

Como é a recuperação? Fazemos a reconstrução cirúrgica e eles conseguem uma vida relativamente normal. Para um deles, um adolescente de 14 anos, achei que valia dar um suporte maior e a fundação investiu em seus estudos até a faculdade. Não é o primeiro. É um trabalho muito compensador: identificar crianças e adolescentes brilhantes em áreas remotas e dar uma estrutura até que possam voar por conta própria. Opero mais de cem pessoas nessas viagens, mas não resolvo o problema. As pessoas precisam de educação. Quando se investe em educação, o resultado é o melhor de todos..

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