Jose Patricio/AE
Jose Patricio/AE

Dobra procura por atendimento psicológico entre desabrigados

Maioria se queixa de sintomas pós-traumáticos, como pânico e depressão; órfãos ganham atenção especial

Paulo Sampaio e Bruno Boghossian, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2011 | 00h00

Depois de traumas físicos, fraturas e lesões, as sequelas emocionais nos sobreviventes da tragédia da região serrana - que deixou, até ontem, 759 mortos - preocupam os médicos. Agora, o que o Hospital de Campanha de Friburgo mais atende proporcionalmente são pacientes com problemas emocionais. Eles se queixam de não conseguir apagar da memória as cenas da tragédia.

"Começamos atendendo as pessoas no leito, confortando-as enquanto os médicos faziam curativos. Depois sentimos necessidade de criar um núcleo de psicologia. O número de pacientes aumenta porque a capacidade de racionalizar a tragédia vai minguando. Uma hora a ficha cai", diz a capitão e psicóloga da PM Renata Pereira da Silva, coordenadora do setor.

Em cinco dias, o número de pacientes diários dobrou. No domingo, foram atendidas 11 pessoas; ontem, 22. Quem relatou a demanda foi a médica responsável pelo hospital, major Simone Maeso. Ela reparou que quando chovia, as pessoas diziam que estavam passando mal. "Reclamavam de dores no corpo, falta de ar. Era tudo psicossomático." A médica diz que, com o tempo, esses pacientes passaram a declarar sua angústia sem constrangimento: "Elas queriam um alívio para a cabeça", diz.

A equipe de psicólogos tem se deslocado para acompanhar velórios de parentes de pacientes, como um pai que perdeu filho, nora e netos. "Como cada um foi achado em um dia, esse senhor passou por quatro enterros em uma semana", diz o psicólogo Gustavo de Oliveira. "No segundo sepultamento, ele já me pediu para estar ali no próximo."  

 

 

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Além das perdas afetivas, as vítimas sofrem por não ter onde morar. "A casa da gente não é só parede, chão e teto. Por isso, quando você perde isso, perde muito mais", diz a psicóloga ambiental Marlise Bassin.

De acordo com a coordenadora de saúde mental de Friburgo, psicóloga Elaine Gomes, "o primeiro momento, o do choque, está passando, e agora aparecem os sintomas pós-traumáticos: angústia, pânico e depressão".

Os 60 psicólogos voluntários que Elaine coordena foram orientados por especialistas do grupo Médicos Sem Fronteiras a agir de maneira "breve e focada". "Não é para fazer psicanálise. O importante é dar acolhimento, recursos para eles irem em frente." Elaine explica que seu grupo tem dado especial atenção a crianças que ficaram órfãs. Entre os adultos, o problema mais grave é o alcoolismo.

Acompanhamento. Nos abrigos de Teresópolis, os moradores que precisaram sair de suas casas recebem acompanhamento de funcionários da prefeitura e de psicólogos voluntários. O principal objetivo é fazer com que reflitam sobre a situação em que se encontram para, depois, começar a traçar planos. "Muitas pessoas chegam fora de sintonia. Como o primeiro instinto é sobreviver, só depois elas entendem o que aconteceu", afirma a psicóloga Fernanda Delgado, de um abrigo na cidade.

Mesmo quem não perdeu parentes e amigos precisa de ajuda. A dona de casa Marcilene da Silva Rodrigues perdeu a casa no bairro Jardim Salaco, mas conseguiu salvar a família. Apesar de reconhecer a sorte que teve, tenta conseguir forças para seguir em frente. "Sei que muitas pessoas passaram por coisas piores. Eu estou com meu marido e meus três filhos, mas tento não pensar sobre o que vou fazer daqui para frente. Não tenho ninguém e não sei quando vou conseguir sair do abrigo", lamenta.

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