Dobra o número dos que assumem beber e dirigir

Pesquisa do ‘InformEstado’ revela que 61,8% dos motoristas bebem, mas 77,7% aprovam rigor da nova regra

Fernanda Aranda

20 de setembro de 2008 | 01h29

No discurso, motoristas dizem que concordam integralmente com a lei seca. Na prática, admitem que bebem antes de dirigir. Após três meses de vigência da legislação, cresceu o número de paulistanos que aprovam as punições mais rígidas para condutores alcoolizados, mas também aumentou a quantidade dos que confessam misturar álcool e direção, mesmo com o cerco dos bafômetros. É o que mostra a segunda pesquisa do InformEstado sobre a lei seca, realizada em parceria com o Instituto GPP a pedido de Estado e Jornal da Tarde. Foram ouvidos 453 moradores da capital.  Veja também  Em 3 meses, 10 mil vítimas a menos nos hospitais  Enquete: você parou de beber e dirigir por causa da Lei Seca? Os efeitos do álcool e os limites da Lei Seca A Lei Seca, em números Os números violência do trânsito de SP No primeiro estudo, feito em julho - um mês depois da promulgação da lei -, o InformEstado detectou que 72,7% dos entrevistados eram "totalmente a favor" da lei seca. Já na pesquisa de 14 de setembro, o porcentual de quem concorda, sem restrições, subiu para 77,7%. Entre os totalmente contra, o índice caiu de 9,8% para 4,9%. Na trilha oposta da maciça aprovação, está o cumprimento das novas regras. Na pesquisa antiga, 33,1% admitiram que beberam e dirigiram. O índice recente quase dobrou: 61,8% - alta de 86,7%. O que explica as duas estatísticas tão contraditórias, segundo especialistas, são dois fatores que também não caminham juntos. Ao analisar a aprovação majoritária, o secretário nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad), Paulo Roberto Uchôa, diz que os impactos quase que imediatos na redução de acidentes em estradas, ruas e avenidas foram os ingredientes mais influentes. Já para o afrouxamento na hora de seguir à risca o que diz a lei, o consultor em segurança no trânsito e diretor da ONG Direção Preventiva Sérgio Berti considera a falha no tripé educação, fiscalização e punição. "Para que não haja desprezo na hora de cumprir a determinação, e também por causa da fiscalização não tão incisiva quanto no início, é preciso campanhas educativas que realmente sejam eficientes. E isso deve anteceder a punição", afirma Berti. "O governo até mantém diversos programas de educação no trânsito, cartilhas explicativas e vídeos e as concessionárias de estradas distribuem folhetos. Mas o meu questionamento é sobre o alcance dessa informação, que parece não surtir muito efeito." Procurados pela reportagem, os Ministérios do Transporte e da Justiça, além da Polícia Rodoviária Federal, não informaram qual foi a verba investida em campanhas educativas sobre a lei seca. Já o Batalhão de Trânsito da Polícia Militar de São Paulo apresentou números imediatos sobre o balanço das blitze realizadas desde que a legislação entrou em vigor. Só na capital paulista, foram 14 mil abordados entre 20 de junho e 4 de setembro, 6 mil que sopraram o bafômetro e cerca de 600 multados em R$ 955 por misturarem drinques à direção. "Mas, infelizmente, a percepção da impunidade ainda é maior do que as multas aplicadas", lamenta o deputado Hugo Leal (PSC), relator no Congresso da lei seca. Leal destaca que o cenário em que nasceu a legislação restritiva à bebida alcoólica era trágico. Enquanto as pessoas celebravam as festas de fim de ano em 2007, 1.188 acidentes eram computados entre o Natal e o réveillon, apenas nas estradas paulistas, 46% a mais do que em 2006. O número de mortos (38) e feridos (821) foi recorde - o que para o inspetor da Polícia Rodoviária Sérgio Manoel de Castro fez a população pedir providências. A resposta veio na forma da chamada lei seca, com a adoção da tolerância zero para motoristas alcoolizados. No aniversário de três meses da legislação, é possível lembrar da redução de 57% no registro de mortes violentas em São Paulo, a queda de 43% nas internações de vítimas de acidentes de trânsito nos hospitais paulistas, além de baixa de 14% nos socorros prestados pelo Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu). Mas os desafios persistem, segundo especialistas e policiais. Só há 51 bafômetros para fiscalizar a frota circulante paulistana estimada em 4,8 milhões de veículos. Existe a promessa da Secretaria de Segurança Pública de aumentar para 151 até o fim do ano. Tudo isso para conter o índice de 17,1% das pessoas identificadas pela pesquisa InformEstado que garante: "Vai continuar bebendo e dirigindo".

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