DO TERROR À PAZ: A NOVA PERIFERIA

Música, cultura e arte tiveram forte influência na transformação no cotidiano da zona sul

O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2013 | 02h01

Primeiro vem o anúncio: "A toda comunidade pobre da zona sul". Depois, um teclado sinistro antecede o primeiro verso da música que se tornou um hino paulistano: "Chegou fim de semana e todos querem diversão..." Raros são os jovens na periferia que não conseguem cantar de cor os versos da música de mais de sete minutos composta em 1993 pelos Racionais Mc's, Fim de Semana no Parque, narrando o dia a dia violento do Parque Santo Antonio, na zona sul da capital.

Naquela época, era preciso sair uma hora antes de as festas acabarem porque, no final das baladas, sempre havia uma turma esperando para o acerto de contas. Podia sobrar para quem não estava na briga. Alugar ônibus para uma última homenagem ao jovem morto da vez no Cemitério São Luiz era rotina. Existiam listas de jurados de morte. Por causa dessas listas, estudar à noite era arriscado.

Havia ainda fronteiras intransponíveis entre bairros vizinhos em guerra. Morador do Jardim Tupi, por exemplo, no Jardim Ângela, não podiam atravessar o escadão para o Jardim Planalto.

Essa tensa realidade se refletia nos números. Em 2001, entre sexta-feira e domingo, o Capão Redondo teve, em média, 106 assassinatos. Esse total chegou a cair para 10 em 2009, passando para 20 em 2011. "Eu vi um assassinato pela primeira vez aos 7 anos. Isso acaba influenciando a cabeça da molecada, que passa também a agir de forma violenta. Os professores têm medo, os médicos não querem trabalhar aqui, a situação causava sérios problemas", afirma o educador e escritor Marcos Lopes, autor do livro Zonas de Guerra, que descreveu sua rotina no bairro.

A situação mudou nas últimas décadas. Para a pedagoga Dagmar Garroux, a Tia Dag, o surgimento dos Racionais foi um divisor de águas. "Eles levantaram a periferia e a zona sul. Encurtaram a distância entre centro e periferia, estimularam a reflexão, a escrita, o diálogo", diz.

Houve uma transformação da cara da periferia. Além de Mano Brown e dos Racionais, no hip-hop, Z'Africa Brasil e Facção Central foram artistas importantes que vieram da mesma área. O poeta Sérgio Vaz tornou-se outra referência com o Cinema na Laje e a Cooperifa. O livro Capão Pecado, do escritor Ferréz, foi outro divisor de águas.

"Eu comecei a me interessar por escrever e pelo português inspirado no Ferréz", diz Lopes, que chegou a ingressar no tráfico de drogas nos anos 1990. Ele viu muitos parceiros do crime morrer. Em 2000, entrou para a Casa do Zezinho, formou-se em letras, deu aulas na rede pública e hoje atua em organizações não governamentais contra drogas. / BRUNO PAES MANSO

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