Do palco do Bozo ao topo do Anália Franco

Aos 54 anos, o arquiteto Joel Abrão já projetou quase um terço dos prédios da área mais rica da zona leste. Antes, foi cenógrafo do SBT e ilustrador de apostilas

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2011 | 00h00

O paliteiro de prédios do Tatuapé e do Jardim Anália Franco que você vê na foto tem uma marca: a do arquiteto Joel Abrão, de 54 anos. Quase um terço das mais de 350 torres erguidas na região mais rica da zona leste de São Paulo nos últimos 25 anos têm sua assinatura. Criar cenários é com ele mesmo. Se não bastasse moldar o espaço de uma das regiões mais verticalizadas da cidade, Abrão já desenhou muitos fundos de palco, como o do Programa do Bozo, o clássico pastelão infantil transmitido pelo SBT nos anos 1980.

Nascido no Tatuapé, Joel Abrão desenha desde criança. Jovem, ilustrava apostilas de cursos supletivos com cenas históricas, do Egito a Roma. Queria ser publicitário, foi parar na Arquitetura. Formou-se em 1981 em Mogi das Cruzes e trabalhou por dois anos em um escritório da área.

Desempregado, recebeu em 1985 convite para trabalhar como cenógrafo no canal de Silvio Santos. Topou para garantir o pagamentos das contas - e não se arrependeu. "Em cenografia, a gente pode tudo. Isso abriu minha cabeça e ajudou muito na minha carreira", diz.

Além do cenário do Bozo, Abrão criou palcos de outros programas, como o Viva a Noite e O céu é o Limite. O cenógrafo Paulo Francisco Rolo, de 54 anos, foi seu companheiro nos tempos do SBT. "A gente trabalhava muito. Admiro ele ter tido a coragem de sair de TV, que é uma área envolvente, para seguir o sonho da Arquitetura", conta Rolo. Para Abrão, era incrível a rapidez com que as ideias se realizam na TV. "Em cenografia você faz e em dois dias está no palco. Prédio demora três anos para concretizar."

Ficou por um ano no SBT. Nas horas vagas, conseguiu desenhar o que seria seu primeiro prédio, uma torre residencial no Tatuapé. Quando a construção começou, saiu do canal e montou seu escritório.

Mesmo fora da TV, a amizade ficou e se estendeu ao homem do Baú. Alguns diretores da emissora decidiram construir um flat de estilo familiar e Abrão ganhou o projeto. O edifício saiu e, em um churrasco para comemorar sua entrega, ele conheceu o antigo patrão Silvio Santos. "Ele ouviu as pessoas me elogiando e pediu para me chamar. Queria fazer o prédio do Banco Panamericano e eu fiz."

Mesmo sem trabalhar mais para o Silvio, Abrão levou outros projetos: depois do banco, refez a fachada do Teatro Imprensa, projetou o complexo de TV da emissora na Via Anhanguera e reformou a própria casa do apresentador. No ano 2000, ainda voltou à cenografia no SBT para projetar a Casa dos Artistas - reality show que foi ao ar no ano seguinte. Não por acaso Silvio e a mulher, Iris, assinam a orelha do livro lançado sobre sua obra, em 2006.

Conjunto. O arquiteto mantém no cantinho da boca um sorriso de quem tem um bairro a seus pés. Do alto de uma das suas criações - uma torre de 31 andares, com apartamentos de R$ 3,5 milhões -, esforça-se para encontrar os prédios que não saíram de sua prancheta - na foto, são menos de dez. "Eu gosto do conjunto. Acho que cada um deles tem uma característica própria, que é diferente do que é feito em outros bairros, como Moema, por exemplo." Abrão não tem medo de arriscar. Abusa de curvas, formas rebuscadas e ornamentos. Em um dos prédios mais luxuosos, em estilo neoclássico, espalhou mais de dez estátuas gregas no térreo.

Apesar de tantas opções, Abrão mora há 20 anos na mesma casa do Tatuapé com a mulher e duas filhas. "Já pensei em mudar, mas quando vou ver o lugar imagino logo que ali pode ter um prédio." Uma preocupação natural. Não quer atrapalhar a evolução do seu bairro. Hoje está com 37 projetos em andamento - 90% na vizinhança.

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