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Do outro lado

Um dia é Thiago. No outro, Laura. A história revelada nesta semana pelo jornal Diário da Manhã, de Goiânia, mostra a transformação do delegado da Polícia Civil, tido com linha-dura nas suas ações de repressão ao crime, que tirou licença médica, foi para a Tailândia, fez uma cirurgia de mudança de sexo e pode assumir em fevereiro uma função na Delegacia de Defesa da Mulher da cidade.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2014 | 02h05

A mudança de nome (autorizada pela Justiça) já ocorreu. Fotos recentes no Facebook revelam as novas feições femininas de Laura. Thiago, no passado, foi casado e tem dois filhos.

Na Argentina, no último mês, nasceu o filho do transexual Alexis Taborda (que nasceu mulher, mas se transformou em homem) com sua parceira Karen Bruselario (nascido homem, que se transformou em mulher). Taborda teve de deixar de tomar seus hormônios masculinos para voltar a ovular e poder engravidar. A história ganhou espaço na mídia internacional no ano passado, quando foi revelada.

Quem acompanha essas notícias pode ver os fatos com certa incredulidade. É como se alguém levantasse da cama e dissesse "cansei de ser homem e resolvi que vou mudar de sexo". Mas essa está longe de ser a realidade das pessoas que lutam contra o que sentem ser uma inadequação total da identidade sexual ao corpo que habitam.

Casos de transexuais, como Laura, revelam um sofrimento absurdo de pessoas que se sentem mulheres aprisionadas em um corpo que tem um pênis, músculos e feições masculinas e onde os pelos e a barba insistem em crescer. Para entender a dificuldade, imagine que, da noite para o dia, seu corpo começasse a apresentar características sexuais típicas do sexo oposto. Assim, você que namora mulheres e gosta de jogar bolar com os amigos, percebe que suas mamas estão crescendo, os pelos estão caindo, a voz está afinando e seu rosto ficando com traços femininos. O que faria? Provavelmente, lançaria mão de tudo o que está ao seu alcance para reverter o processo.

É isso que Laura e outras pessoas na mesma situação buscam fazer. Hoje, amparados por diagnóstico e suporte médico (transexualismo é considerado um transtorno de identidade de gênero pela Organização Mundial da Saúde) e por uma lei em diversos países (como no Brasil) que garante o direito às transformações corporais nos serviços de saúde e à mudança de nome e gênero, o processo ficou mais fácil.

Mas ele está longe de ser tranquilo. O caminho é longo, o acompanhamento médico, social e psicológico pode demorar anos até autorizar o início das transformações (uso de hormônios, próteses), que vão culminar, em alguns casos (mas não em todos), em cirurgia.

No Instituto de Psiquiatria, do Hospital das Clínicas da USP, tive a chance de acompanhar a trajetória de vários desses pacientes. Muita luta, preconceito, sofrimento, quadros depressivos e distúrbios de ansiedade estavam na trajetória. Anos depois, vi ainda mais de perto a transformação de uma amiga que passou por boa parte das mudanças. Hoje, vive mais feliz com seu corpo e sua identidade.

Boa parte dos casos (novamente não todos) aparece cedo. Os especialistas argumentam que se o instrumento diagnóstico for "afinado" para a detecção mais precoce e se um trabalho de apoio familiar e social for instituído desde o início, o caminho dessas pessoas pode ser menos árduo e sofrido.

Em tempo, a pesquisa Equal at Work, do jornal inglês The Times, do dia 16 de janeiro, traz os 100 empregadores ingleses que mais respeitam os direitos e a igualdade do público GLS no ambiente de trabalho. Entre eles, Ministério da Defesa, Exército, Marinha e várias polícias de todo o Reino Unido. Tomara que Goiânia, com Laura exercendo seu papel de delegada, que defende a justiça e combate crimes, possa servir de exemplo para o restante do País.

*Jairo Bouer é psiquiatra.

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