Do glamour ao mundo do crime

Fotógrafo de moda e de celebridades, Bob Wolfenson viaja pelo País para produzir um livro sobre apreensões policiais

Valéria França, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2010 | 00h00

Aos 40 anos de carreira, o fotógrafo Bob Wolfenson, de 56, conhecido por registrar cenas glamourosas do mundo da moda e por revelar personalidades nacionais de um jeito diferente, resolveu mergulhar no mundo policial. Saiu pelo Brasil batendo na porta de juízes e delegados para conseguir autorização para fotografar mercadorias ilegais apreendidas em território nacional. O objetivo: fazer um livro, Apreensões (Editora Cosac Naify, 48 págs, R$ 50), que já está nas livrarias e até virou tema de exposição no Centro Universitário Maria Paula, no centro de São Paulo.

Bob deixou seu estúdio na Vila Leopoldina, zona oeste, frequentado por beldades como Gisele Bündchen, para se embrenhar nos confins de Mato Grosso e fotografar "num quintal sórdido", como ele mesmo descreve, inúmeros papagaios apreendidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama). "Nem eu mesmo acreditei que estava lá."

Bem humorado e com um jeitão informal, Bob já fez Caetano Veloso posar fazendo careta e o ator Wagner Moura chupar o dedo para um retrato. Em Belo Horizonte, surpreendeu o delegado Marcelo Couto com sua alegria ao andar pela primeira vez em uma viatura policial. "Os olhos dele brilhavam. Ele parecia uma criança", conta o delegado.

"Ah, gostei mesmo", confessa o fotógrafo, que também gostou do "quintal sórdido", da infinidade de armas que encontrou num carrinho de supermercado e das toneladas de toras retidas.

O anti-glamour do projeto foi quase um lazer para o fotógrafo, mas antes de tudo um momento de reflexão sobre o País. "Eu também fico indignado. Leio muitas reportagens sobre o assunto, mas elas passam. Então resolvi fazer um inventário dessa tragédia", explica. "Por trás de cada apreensão há uma história, um universo paralelo."

Quando Bob chegou a Belo Horizonte, foi encontrar um dos tantos delegados com quem teve contato - esse indicado por uma amiga. "Logo de cara, ele disse que me conhecia. Contou que tinha visto as fotos que fiz da Cleo Pires na Playboy (publicada no mês passado). E que me ajudaria."

Bob é do tipo que não se acha o tal e isso quebra falsas expectativas. "Trata-se do sarcástico mais carinhoso que eu conheço", diz a amiga de infância, Analívia Cordeiro, de 56 anos, bailarina e coreógrafa. "Ele é capaz de ser franco a ponto de dizer que você está horrorosa, mas de um jeito que você vai até gostar."

São Paulo. Em 2004, ele publicou Antifachadas, um livro que reúne uma visão particular de edifícios de São Paulo, cidade que, na infância, Bob via como "amassada", marcada pelo acúmulo de prédios e pessoas.

Antes mesmo de pensar em ser fotógrafo, aos 10 anos, quando passava horas no telhado da casa dos pais, no Bom Retiro, centro da capital, ele costumava fotografar o bairro lá das alturas. "Na época, usava uma câmera alemã bem vagabunda", lembra. E, mesmo sem experiência, já conseguia passar de forma direta o que via.

"Sou de um outro tempo", conta Bob. "A Vila Olímpia não era o que é hoje. E eu costumava ir com meu pai ao centro, lugar que fotografei muito. Tudo acontecia no centro."

Em 1970, aos 16 anos, Bob foi trabalhar na Editora Abril, como boy. Na época, seu pai tinha morrido e por indicação de um parente conseguiu uma vaga como assistente de fotógrafos como Luiz Tripolli, Antonio Guerreiro e José Antônio. Depois, entrou na Faculdade de Ciências Sociais, da Universidade de São Paulo (USP).

"Mesmo com tantos problemas tão conhecidos, gosto de São Paulo. Não há lugar melhor para viver." Bob mora no Pacaembu, zona oeste, onde costuma ser visto correndo na rua ou no estádio do bairro. Casado há 31 anos, tem três filhas, a mais velha com 33. Seu programa favorito? "Ficar em casa com a família."

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