Do caderno de um repórter

Hoje, não sei, mas no começo dos anos 90 a redação da Elle vivia o permanente tormento de decidir o que, neste mundo, era ou não era Elle. Submetidas a uma sutilíssima e inescrutável peneira, as pessoas, coisas e assuntos podiam ou não ser Elle - e, caso não fossem, não esperassem acolhida em nossas páginas. Novato na revista, cometi a ingenuidade de levar a uma reunião de pauta a ideia de um perfil da Nana Caymmi. O impacto da sugestão só teria sido maior se a cantora, com toda a sua tonelagem física, houvesse desabado no centro daquela mesa servida pela mais implacável anorexia carnal e jornalística. Diante do constrangido silêncio que ali baixou, enveredei pela defesa dos dotes vocais da Nana - enquanto ia me dando conta de que talvez eu próprio fosse inapelavelmente não-Elle. Novo silêncio, até que alguém, maternalmente, me pusesse nos trilhos:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h07

- A voz da Nana é Elle, compreende?, mas ela não é, compreende?

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Ainda no prédio da Marginal do Tietê, a redação da Veja ficava no sétimo andar, e de lá saía eu, num começo de noite, quando o elevador parou no sexto, o da diretoria, e nele entrou ninguém menos do que Victor Civita, com quem eu jamais havia trocado palavra. Só nós dois lá dentro, cada qual num canto, como num ringue de boxe. Mal iniciamos a descida e o patrão, sorridente, veio vindo na minha direção. Seja o que Deus, o Outro, quiser, pensei eu - e nesse instante o dono da Editora Abril, num gesto rápido, puxou pela ponta uma nota que emergia do bolso da minha calça jeans. Seriam hoje uns R$ 50, e com eles meu companheiro de viagem, serelepe, voltou para o seu canto. Nesse momento desaguamos no térreo, e Victor Civita, com uma gargalhada, me devolveu o dinheiro, ao mesmo tempo em que me aplicava nas costas uma cordial mas nem por isso indolor palmada.

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No ambiente algo hospitalar das redações de hoje, talvez não seja hábito pregar trotes nos calouros. Antigamente era, e não sei como escapei desse ritual de passagem quando, em maio de 1970, cheguei para disputar emprego no Jornal da Tarde. O falecido Inajar de Souza, que antes de ser avenida foi um boa-praça, bem que se esforçou para precipitar no ridículo e no sufoco aquele mineirinho. Talvez tenha me salvado o pé-atrás com que, forasteiro, encarei a selva paulistana. Menos sorte teve outro iniciante, a quem se confiou a missão de escrever sobre uma garota americana desmemoriada que fora vista a vagar por Guaratinguetá em companhia de um coiote. Mais romântica e intrigante não poderia ser a pauta, e a ela o aprendiz de repórter se aferrou com zelo inexcedível. Logo no primeiro dia, porém, viu desmoronar-se parte da história, ao descobrir que a menina não era americana. No segundo, soube que a desmemoriada se lembrava de tudo. Por fim, provado ficou que o coiote não passava de um reles cachorro brasileiro sem pedigree. Ainda me lembro dos uivos, pretensamente de coiote, com que o foca foi saudado na volta à redação.

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Era por telex que boa parte das notícias chegava às redações, e foi assim que num final de tarde soubemos no Jornal da República que o deputado Ulysses Guimarães havia morrido de infarto nos braços do colega Tales Ramalho. Sucessivas mensagens, como se hábito, foram ampliando a informação: naqueles tempos de pós-anistia, mas ainda de ditadura, Ulysses tinha ido confabular com Tales - e lá pelas tantas adernara no sofá. Percebendo a gravidade do que se passava, o parlamentar pernambucano se jogou sobre o corpo do líder oposicionista, e, em vão, lhe aplicou respiração boca a boca. Todos nós, na redação, do diretor ao contínuo, sabíamos que se tratava de um trote de mau gosto, até porque Tales Ramalho, sendo cadeirante, dificilmente teria conseguido atirar-se sobre Ulysses. O editor de política foi o único a levar a coisa a sério, e, esbaforido, se espalhou em providências para a sensacional cobertura. E quando, uma hora mais tarde, percebeu a esparrela em que tinha caído, não disse palavra - juntou suas coisas e, sob gozações, se escafedeu, ultrajado. Na semana seguinte, morre subitamente o senador Petrônio Portela, e o editor, ao receber o telegrama, berrou lá da sua mesa:

- Duas vezes vocês não me pegam não, seus sacanas!

Deu trabalho ao diretor convencê-lo de que dessa vez era verdade.

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