'Diziam que não tinha perigo. Ela nunca voltou'

Durante cirurgia para tirar mioma, em 2004, Welzita teve o intestino perfurado acidentalmente pelo médico cirurgião

O Estado de S.Paulo

22 Março 2015 | 02h01

A expectativa para a cirurgia era a melhor possível. A cabeleireira Welzita de Jesus Correia Silva, então com 36 anos, tinha um mioma no útero que seria retirado por meio de uma operação simples, segundo os médicos. "Eles diziam que era algo muito comum entre as mulheres, não tinha perigo, que ela ia operar em um dia e no outro já estava em casa", contou o marido, o vigilante João Santana Martins da Silva, de 51 anos. "Infelizmente, ela nunca voltou. Ficou um ano e seis meses em coma e morreu no hospital."

Durante a cirurgia de remoção do mioma, em 2004, Welzita teve o intestino perfurado acidentalmente pelo médico cirurgião. O problema não foi percebido na hora pela equipe. "Eles costuraram a barriga dela sem tapar o furo feito. Dias depois, ela passou a ficar inchada, começou a infeccionar toda a parte interna do abdome", afirmou Silva. O erro foi apontado em exames e admitido pela equipe, mas o processo infeccioso nunca pôde ser revertido.

"Perdi o emprego, fiquei desnorteado. De repente me vi sozinho com três filhos pequenos para criar", contou ele. De família humilde, o vigilante não tinha condições financeiras para entrar com uma ação contra os médicos, mas acabou sendo ajudado por uma advogada para a qual Welzita havia trabalhado.

"Entramos na Justiça para pedir indenização e uma pensão para os meninos, mas mais do que a indenização queria que os médicos pagassem pelo que fizeram, para que nunca fizessem isso com mais ninguém", disse.

Silva ganhou a causa, mas, até agora, não recebeu a indenização. O processo está na fase de execução dos valores. Ele conseguiu, por meio de uma liminar deferida pela Justiça, fazer com que o hospital pagasse auxílio aos filhos dele, hoje com 25, 23 e 19 anos.

Para o vigilante, o excesso de trabalho dos médicos foi o responsável pelo erro que causou a morte da sua mulher. "Esses médicos viviam correndo de um emprego para o outro. Fizeram a cirurgia dela e já tinham outra agendada em outro hospital. Nessa correria é que acontecem os erros."

Tratamento errado. No caso da dona de casa Elisia Duatim, de 73 anos, o erro médico só não a levou à morte porque a paciente contrariou os profissionais que a tratavam e viajou para outro Estado para ter a opinião de mais especialistas. Diagnosticada com um câncer de fígado em 2009, ela recebeu dos médicos em Curitiba a informação de que teria de passar por uma quimioterapia indicada para pacientes que já apresentavam metástase.

"Mas o exame não tinha dado isso. O tumor estava só no fígado, não tinha se espalhado, mas eles que são os médicos, então confiei", contou ela.

Depois de cinco meses do tratamento, os exames mostravam que o câncer só crescia. "Disseram para a minha família que não tinha mais jeito, que eu só tinha um mês de vida."

Inconformada, Elisia decidiu viajar para São Paulo e procurar um especialista no assunto. "Eles fizeram novos exames e viram que realmente não havia metástase e meu tumor tinha de ser retirado por meio de uma cirurgia, e não com quimioterapia", afirmou. A operação foi feita no mesmo ano e a dona de casa se curou da doença.

Para arcar com os mais de R$ 120 mil que pagou pelo tratamento com os médicos de São Paulo, ela teve de vender um imóvel. "Meu convênio não cobriu esse segundo tratamento e eu tive de me virar para pagar. Se eu tivesse continuado em Curitiba com aqueles médicos, nem estaria mais viva", disse a dona de casa.

Elisia entrou com processo pedindo indenização e o ressarcimento pelas despesas médicas. Também teve o pedido atendido pela Justiça, mas aguarda a execução da sentença para receber o valor. "Foi um descaso. Acho que boa parte dos médicos sai da faculdade sem o conhecimento necessário", afirmou. / F.C.

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