Disque-extorsão financia até imóveis

Investigação de tentativa de golpe contra vice-presidente revela esquema rentável que envolve presos e agentes penitenciários

Gabriela Moreira e Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

A tentativa de extorsão contra o vice-presidente da República, José Alencar, em abril, revelou detalhes do funcionamento do crime conhecido como disque-extorsão no sistema penitenciário do Rio. Segundo testemunhas ouvidas pela Delegacia Anti-Sequestro (DAS), no presídio de onde partiu a ligação para José Alencar, agentes penitenciários recebem propinas que podem chegar a R$ 600 para facilitar a entrada de chips e celulares.

Na mesma unidade, o esquema é tão sistematizado que um preso chegou a criar uma conta bancária para o depósito de todas as extorsões. Como uma espécie de "taxa de administração", ele recolhe 15% de todos os depósitos.

As revelações foram feitas em um inquérito que correu sob sigilo, na DAS. O objetivo era investigar uma outra extorsão, ocorrida três dias depois da sofrida por Alencar, por um casal de idosos, em Riachuelo, zona norte. De acordo com testemunhas, o bando que tentou extorquir dinheiro do vice-presidente já comprou carros, motos e até imóveis com as ameaças por telefone.

"O preso que pratica um crime dentro da cadeia e consegue adquirir um benefício patrimonial tem de depositar integralmente a quantia na conta de um dos presos que pertencem à facção Terceiro Comando. Este retira 15% e o restante entrega na mão do preso", disse uma das testemunhas, no inquérito, completando: "Diante do esquema tão rendoso (sic), tem preso que não tem interesse em sair do sistema, já que destes 15% conseguem comprar carros, motos e até apartamentos."

Segundo os depoimentos, uma das formas de entrada de aparelhos e chips nas cadeias é por meio dos presos que saem e voltam para a prisão, por gozarem de benefícios de progressão de regime, como Trabalho Extra Muros ou Visitas Periódicas ao Lar. "O dinheiro que entra na cadeia vem dos extramuros", disse uma testemunha. Segundo ela, as extorsões por telefone são facilitadas pelos agentes penitenciários, pois "deixam o preso com dinheiro" e, assim, alimentam as propinas aos "guardas".

Suborno. A facilitação se dá durante as revistas e "gerais" que são frequentemente avisadas aos presos pelos agentes, de acordo com os depoimentos. Cada "aviso prévio", contam as testemunhas, rende aos agentes até R$ 600. São eles que, segundo os depoentes, muitas vezes comercializam os celulares nas prisões.

Além deles, os presos que conquistam a confiança dos servidores, chamados de "faxina", atuam como vendedores. "Um aparelho de celular pode ser adquirido por R$ 250 a R$ 300. Tanto os "guardas da cadeia" quanto os "faxinas" realizam a venda", disse um dos depoentes, que acrescentou: "As câmeras não funcionam porque os guardas não querem ser filmados."

Os nomes das testemunhas não foram revelados para preservá-las. Por ordem da Justiça, elas foram colocadas sob proteção. Três pessoas tiveram a prisão decretada pelo crime contra o casal de idosos, duas já estavam presas na carceragem de onde teria partido a ligação para Alencar.

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