Disputa é entre Morte ou vida

Mais um shopping ou um pulmão para a cidade? Ator e diretor diz que especulação produz genocídio

José Celso Martinez Corrêa, especial para o Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2008 | 21h39

A minha casa é uma maloca / rasgada no futuro / É o inverno / É o eterno / enquanto duro / osso duro osso duro / que ninguém, / há de roer / a minha casa é o céu / é o chão caroço bruto / traçado no chão do viaduto / pro Anhangabaú / da Feliz Cidade. (Música e letra de José Miguel Wisnik) Batizamos com o nome de Anhangabaú da Feliz Cidade o sonho parido dos 27 anos de luta para impedir a construção do Shopping do Grupo SS no entorno tombado do Teatro Oficina. Materializou-se num projeto urbano-arquitetônico de meu irmão, arquiteto, João Batista Martinez Corrêa, e minha sobrinha, Beatriz Pimenta Corrêa. O Teatro Oficina liga um Teatro de Estádio para 5 mil pessoas, como o que vi ontem na ilha de Delos, na Grécia, onde estou de férias, com uma arena em curvas de nível, rebolantes, em "volutas impossíveis", coberto por uma Oca retrátil, a uma Universidade Popular Livre Antropofágica, inspirada no nosso trabalho com Os Sertões, com as crianças do "Bexigão" (nome do trabalho que durante mais de seis anos vem sendo feito com crianças do bairro, alfabetizadas com as palavras de Euclides da Cunha) e nos textos filosóficos de Oswald de Andrade. A esse conjunto se soma a "Praça da Cultura" concebida por Paulo Mendes da Rocha, "ressignando" o Minhocão em frente ao nosso Teatro. Toda área reflorestada, como anteviu o poeta Caetano Veloso em Sampa: Tuas Oficinas de Florestas, teus deuses da Chuva.  Veja também:Imagens do Teatro Oficina   A área do entorno do Teatro, a partir da Rua Oficina, ainda "embecada", se transforma num Pulmão, num Chacra do Bexiga. Um choque na vida de Sao-Pan toda "guetada", toda enclausurada em guetos, pobres ou ricos. Um ponto de encontro, como toda metrópole deseja, necessita uma Lapa, um Pelourinho da Paulicéia.  O Grupo SS está comprando tudo por ali, para verticalizar o bairro, e realizar um Paraíso de Executivos: uma "Las Vegas brasileira". O maravilhoso povo mestiço de nordestinos, migrantes negros que já foram donos daquelas terras, pequenos comerciantes, artistas, em nome do projeto do Shopping SS, já vêm sendo exportados para as regiões interplanetárias da periferia das periferias de Sao-Pan. Crianças do "Bexigão", que ocupavam com os Sem-Teto o prédio da ex-Caixa Econômica da Rua Abolição, já foram parar em Marte. Isso é genocídio!  A encenação de Os Sertões, suas cinco peças têm sido uma metáfora (em grego = transporte) para este novo Bexiga. Uma vitamina para as mais de cem pessoas que a criaram, para as milhares que a assistiram e hoje equacionam a maturidade, as formulações concretas para o que era sonho concretizar-se e vencer o niilismo dos que se entregam.  Marcelo Ferraz afirma que nunca Lina Bardi pensou num Teatro de Estádio. Prefiro considerar essa afirmação uma perda de memória mais que uma traição. O projeto original de Lina Bo Bardi é considerado por alguns membros do Iphan, em vias de tombar federalmente o entorno do Oficina, um modelo arquitetônico urbanístico de uma cidade contemporânea. Lina o concebeu desde o início do Oficina, como "uma rua, chão de terreiro, galerias do Scala de Milano, dando para as Catacumbas (O Coliseum) de Silvio Santos". Podemos provar, temos o primeiro desenho da "Rua" dando para o Estádio, aliás assinado por Marcelo Suzuki, projetado dia 24 de agosto de 1980 no Oficina. Temos fotos da maquete do Teatro de Estádio e do Oficina, realizado por Lina e Suzuki, vídeos gravados no Condephaat em 1983, com a maquete na mesa do conselho do órgão. A maquete estava ainda num belo cartaz muito divulgado em 1980, quando o Grupo SS quis comprar o Oficina, defendido por uma grande admiradora do Sambódromo carioca, que termina numa Apoteose, que para ela era a abertura da Rua Oficina em Teatro de Estádio.  Silvio Santos na sua visita pessoal ao Oficina, às 17 horas de um domingo de 2004, entendeu tudo. O projeto Família Jetson, de Júlio Neves, veio abaixo. Ele nos pediu: "Mostrem-me um layout." Procurei imediatamente Oscar Niemeyer, que topou. Aí apareceram os Marcelos Suzuki e Ferraz, dizendo terem sido chamados por um advogado do Grupo SS, dr. Ricardo, mas afirmando que somente aceitariam o convite se eu concordasse. Eu fiquei muito feliz e concordei. Convidei-os para uma reunião onde estudaríamos com o pessoal do Oficina, pessoas envolvidas nesta luta, toda história dos vários projetos existentes para a área, partindo da matriz da Lina, passando pelos de Paulo Mendes da Rocha, Edson Elito, Célia Paes, Cris Cortillo, que no decorrer dos anos, haviam trabalhado em cima. Quando os Marcelos apareceram na reunião, disseram que já estavam contratados pelo Grupo SS. Pediram que eu redigisse um programa. Escrevi tudo que minha experiência inspirara. Como réplica mostraram tempos depois, no Oficina, onde tinham chegado. Foi um choque! Era na realidade um Teatro até bonito por fora, mas convencionalmente podre por dentro: 1.000 lugares, muito mal estudados, coadjuvando na realidade um projeto para o Patrão-Shopping, dando uma abraço de urso, no que seria o "Teatro de Estádio".  Aceitei com a condição de que houvesse modificações. Propomos a criação de um conselho, com a participação não somente da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona para gerir o novo teatro, mas também com a Cooperativa Paulista de Teatro; os Grupos Teatrais que, através do Movimento Arte contra a Barbárie, conquistaram a Lei de Fomento Municipal, renovando poderosamente o teatro na nossa cidade; sambistas da Vai-Vai, Coletivos Internacionais de Teatro, como o Volksbühune de Berlim, e muitas entidades e pessoas da Multidão ativa, fariam parte desse conselho gestor.  Nossa produtora teve um encontro com um dos responsáveis pelo shopping e ele disse que a gestão seria do Grupo SS porque "nem os artistas, nem o Estado têm competência para isso, pois não têm dinheiro". Tive uma iluminação: o capitalismo é uma utopia! Tem a ingenuidade de achar que o $ tem competência pra tudo!? O Anhangabaú da Feliz Cidade não é um projeto utópico. Temos tido apoio social crescente da Multidão criadora que sempre existiu, mas agora vem à tona, com toda força, depois das catástrofes do efeito estufa sobre o planeta epifanizadas neste 2007, em todo Globo. A peça em cartaz há 27 anos no Bexiga, Oficina X Grupo SS, acontece também com sucesso em muitas partes do mundo. A Globalização dominada pelo capital vídeo-especulativo-financeiro, paradoxalmente impondo a vida como abstração, produziu seu próprio veneno: o desejo poderoso do corpo e da alma táteis manifestado na arte do Teatro. A especulação, principalmente a imobiliária, é a Morte, a ela se opõe o desejo de Vida, do Poder Humano. A especulação produz o shopping: a Igreja da Agorafobia, as Cercas, os Cadeados, os Muros, os Condomínios, as Castas. O Teatro, provamos com Os Sertões, pode ser, no Brasil de hoje, algo tão forte quanto o futebol, o carnaval, a música brasileira. Não seria possível em outra época esta força geradora de poder civilizatório. A Cultura corresponde a 10% do PIB brasileiro. Um projeto da dimensão do Anhangabaú da Felicidade, pode criar mais que "empregos", pode criar trabalho, pra muita gente, e instituições como a Petrobrás começam a compreender o maior investimento, na maior energia que existir no planeta: a cultura humana. A pessoa de Silvio Santos, que vem de uma dinastia de mecenas, os Abravaneis, que deram aos Médicis, a Florença, ao mundo, o Museu de l’Ufizzi (Museu Oficina), pode muito ser um dos investidores neste projeto, independentemente do grupo financeiro que leva seu nome. Em Mannheim, na Alemanha, fomos convidados a fazer a peça Os Bandidos, de Schiller, onde expusemos tragicomidaorgyasticamente tudo que está aqui escrito. Esta luta, e o que ela gera, é desejo do Globo. Neste local poderemos realizar bienais Dionisíacas com todos os teatros mundiais que estão trazendo este novo esporte: o Teatro, Paixão das Multidões, ganhando força na luta mundial contra o efeito estufa, e pela espécie mais ameaçada de todas de extinção, a do ser humano, livre, poderoso, interferente nas determinações das grandes Corporações.  Imagine a pretensão deste grupo financeiro que há 27 anos nega a saída da rua riscada por Lina Bardi, pretender fazer um Shopping Cultural. Que Cultura? No carnaval deste ano, fizeram uma obra de arte: colaram os destroços da primeira Sinagoga de São Paulo, que destruíram em 2006, em frente a um muro de cimento que levantaram exatamente no Beco que Lina queria ver atravessado pela Rua Oficina. Colocaram até uma estrela de David com a qual coroei Antonio Conselheiro no DVD de A Terra. Muita gente que foi ver os Os Sertões achava até que era "cenário". Nós chamamos de Auschwitz. Exatamente nos Arcos Romanos do fundo norte do teatro, que Lina Bardi preservou como "Arqueologia Urbana", lá onde ela havia marcado os arcos gêmeos do triunfo de passagem da Rua Oficina, nossos vizinhos invadiram, profanaram a clareza Apolínea de sua arquitetura. Por que estes dois talentosos arquitetos têm de segurar esta bandeira? Dinheiro nenhum justifica. Tenho a certeza de que brevemente a revisão que o Condephaat está fazendo da desvalorização do entorno feito pelo período predatório das gestões anteriores, a grandeza da pessoa de Silvio Santos, o despertar dos corpos da multidão em luta pelo renascimento do planeta, e nossa própria luta estão já realizando o destino grandioso deste pedaço de terra. A opção por um desses dois projetos: mais um Shopping ou uma Ágora - Pulmão para a cidade; duas concepções de Morte ou de Vida para os nosso dias. Merda.  José Celso Martinez Corrêa é diretor, ator, produtor e dramaturgo do Teatro Oficina há 49 anos Texto publicado originalmente no dia 8 de julho de 2007 em O Estado de S.Paulo

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