Disposto, músico fez show rock'n'roll no Rio

Não falou com a plateia, mas dançou e batucou nas caixas de som; voz estava mais clara do que na turnê de 2008

RIO, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2012 | 03h04

Sem dizer nem um obrigado à plateia, mas parecendo estar se divertindo muito, Bob Dylan fez um show predominantemente de rock'n'roll na abertura de sua turnê pela América Latina, ontem à noite no Citibank Hall, no Rio.

Ele abriu a noite com a música costumeira, Leopard-Skin Pill-Box Hat, tocando teclado, às 20h10. O local estava somente com dois terços de sua capacidade ocupados, provavelmente por causa dos altos preços dos ingressos (o mais barato estava a R$ 500).

Havia também uma espécie de "Estado de sítio" para as câmeras e celulares. Antes do show, advertiram mais de uma vez: "Se fotografar, ele vai embora". E houve quem reclamasse da estrutura. "Cadeirinha fubeca, achei que era uma mesa", reclamou a socialite na plateia, mais uma que caiu no show errado.

Dylan dançou, batucou nas caixas de som e mostrou-se muito disposto. Estava com a voz mais clara e a dicção mais cristalina que em 2008, seu último show no Brasil. Em Ballad of a Thin Man, sua voz é processada para criar eco. O público, por causa dos lugares vazios, foi para a frente e cantou a plenos pulmões músicas como Like a Rolling Stone e Desolation Row. As exigências do misantropo Dylan incluem uma iluminação de palco que parece à luz de velas, bruxuleante e instável.

Mito. Entre esgares que parecem sorrisos e uma condução impecável de seu repertório, o mito reafirma uma forma artística espetacular.

Os seus blues mais vigorosos soam frescos e renovados, como Beyond Here Lies Nothin' e Tangled Up in Blue. Desolation Row foi de cortar o coração, interminável oração de deserdados com acento gospel e violentos rasantes de guitarra. Durante Summer Days, ele foi até detrás de uma caixa acústica e tomou um gole de um treco que parecia limonada, meio verde.

Em Forgetfull Heart, acompanhado de violino, gaita e contrabaixo acústico tocado com um arco de cordas, Dylan criou o momento mais pungente do show. Em The Levee's Gonna Break, ele foi ao teclado Korg com um jeito displicente, como se duvidasse de sua missão de estar eternamente na estrada.

Em Simple Twist of Faith, a décima da noite, deu para ver uma gota de suor pingando do chapéu. Ao final, após All Along the Watchtower, o público ficou esperando um bis que não viria. Dylan não bisa, mas aterroriza. / J.M.

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